24 agosto 2015

"O sol é para todos" ou "Que puta livro maravilhoso"

postado por Manu Negri


Olhei pro espaço branco que havia neste post por um longo tempo antes de começar a escrever. É que acabei de ler O sol é para todos ontem e as sensações maravilhosas que me despertaram ainda estão frescas no meu coração. Talvez eu possa dizer, antes de qualquer coisa, que esse livro definitivamente é um dos melhores que já li até hoje.

Comprei a edição de 1983 em um sebo online. Veio com a lombada colada com durex, uma dedicatória para uma moça chamada Ondina e as páginas bastante amareladas, com um leve cheirinho de mofo, o que provavelmente me ajudou a ser melhor transportada para os anos 1930, período onde se passa a história de O sol é para todos.

Ah, SEM spoilers aqui. :)

Parte I: as aventuras dos irmãos Finch

O livro é todo narrado sob o ponto de vista de Jean Louise "Scout", uma menina de 6-8 anos (já que da primeira à última página se passam alguns anos), que vive em uma cidadezinha rural fictícia do estado do Alabama chamada Maycomb, atingida pela Grande Depressão. Ela é irmã de Jem, 3 anos mais velho, e filha do advogado Atticus Finch, que batalha para criar os filhos sozinho depois que a esposa morrera, contando com a ajuda da empregada Calpurnia, que trabalha para ele desde antes das crianças nascerem.

Maycomb é uma típica cidade do sul do território americano, tremendamente racista, onde praticamente todos os habitantes se conhecem. Na primeira parte do livro, acompanhamos as peripécias de Scout, Jem e seu novo amigo Dill – sobrinho da vizinha, Mrs. Rachel, que sempre aparece nas férias de verão – por entre as ruas e quintais de Maycomb, fazendo-nos entender a dinâmica do lugar e a moralidade de uma sociedade superconservadora. Nesse contexto, podemos apontar a própria Scout como uma pequena transgressora: espoleta e sem papas na língua, só aceita brincar com os meninos se for considerada uma igual e detesta usar vestidos, quando uma "dama" era tudo o que uma mulher poderia ser naquela época.

Com uma narrativa muito bem amarrada que segue a personalidade de Scout, de nuances bem humoradas, sensíveis e adoravelmente sarcásticas, a autora Harper Lee consegue transformar qualquer detalhe do cotidiano dos irmãos em algo fantástico. O sol é para todos até parece nome de livro de autoajuda; talvez, no fim das contas, realmente seja: ele diz muito sobre amadurecimento, esperança e a convivência entre os diferentes. O título original é To kill a mockingbird, ou Para matar um mockingbird. Mockingbirds não existem no Brasil, mas no livro foram traduzidos como "pássaros imitadores" e aparecem em um trecho em que Atticus, após presentear os filhos com espingardas de ar comprimido, diz que podem atirar em qualquer coisa, menos nesses pássaros, pois seria um pecado: afinal, "eles nada fazem a não ser cantarem para alegrar nossos corações". Scout se lembra desse ensinamento ao final do livro, nos fazendo entender melhor a analogia desse título com a história, e é lindo.

Parte II: o caso Tom Robinson

"– Escute, se você conseguir aprender um pequeno truque, irá se relacionar melhor com todo tipo de gente: só entenderá realmente uma pessoa quando conseguir ver as coisas do ponto de vista dessa pessoa.
– Como é?
– Até que você se enfie na pele da pessoa e dê umas voltas com ela."
À medida que Scout e Jem crescem, precisam aprender como a vida funciona em Maycomb. Quando um negro chamado Tom Robinson é acusado de estuprar uma moça branca e Atticus é designado para defendê-lo no tribunal, a cidade entra em alvoroço. Para a maioria esmagadora dos moradores, estar ao lado de negros, principalmente numa situação dessas, era um absurdo, uma quebra do código social. É aí que Atticus se mostra um personagem muito à frente da mentalidade pequena de seus vizinhos: quando Jem e Scout não entendem porque passam a ser alvo de ridicularizações dos colegas, ele intervém repassando aos filhos seus maiores valores de caráter. Atticus diz que, se deixasse de defender Robinson, ele não poderia mais olhar nos olhos deles ou andar de cabeça erguida.
"– (...) eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer."
Esta parte do livro é mais focada em como o racismo e o caso afetam as vidas dos Finch, principalmente das crianças. Eu ainda não disse, mas O sol é para todos foi escrito em 1960, quando o preconceito ainda era fortíssimo por aquelas bandas. Harper Lee deu um belo tapa de luva em todo mundo, esfregando na cara de quem fechava os olhos para o fato de que os homens não nascem iguais e possuem privilégios, sim. Não é à toa que o livro ganhou o prêmio Pulitzer no ano seguinte e se transformou num clássico. Infelizmente, a obra continua bastante atual.
"Quando Lula começou a andar em nossa direção, Calpurnia disse:
– Fique onde está, negra.
Lula parou, mas retrucou:
– Você não tinha nada de trazê crianças branca pra cá. Elas têm a igreja delas, nós temo a nossa. Essa é a nossa igreja, não é, Mrs. Cal?
– O Deus é o mesmo, não é? – replicou Calpurnia."

A adaptação cinematográfica


Meu Deus, a Scout é do jeitinho como eu a imaginava. O filme de 1962, com Gregory Peck (o pai do Damien no primeiro volume da trilogia A profecia) no papel de Atticus, é ótimo e bastante fiel ao livro, apesar de suprimir várias coisas (que novidade). A interpretação de Peck lhe presenteou com o Oscar do ano, mas O sol é para todos também ganhou o prêmio de Melhor roteiro adaptado e Direção de Arte, além de ter concorrido a Melhor atriz coadjuvante (Mary Badham, quem fez Scout), Melhor filme, Melhor diretor, Melhor fotografia e Melhor trilha sonora. Ah, e tem na Netflix! <3    
"– Atticus... – começou Jem, desolado.
Já no portal, ele voltou-se.
– O que é, filho?
– Como eles puderam fazer isso? Como é que eles puderam?
– Eu não sei, mas fizeram. Já fizeram isso antes, fizeram essa noite e farão outra vez, e quando isso acontece... parece que apenas as crianças choram."

Espero que eu tenha convecido vocês a lerem O sol é para todos. Eu estou completamente apaixonada; foram várias as partes que me emocionaram, mas ao final chorei não porque há um final triste ou algo assim, e sim porque estava me despedindo daqueles personagens que me acompanharam nas minhas viagens de ônibus até o trabalho. Isso é a melhor coisa que tiro de uma boa leitura. E desculpem as várias citações, mas não pude evitar.
"– (...) se só existe um tipo de gente, então por que é que eles não se entendem? Se são todos iguais, então por que se desprezam tanto?"


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