12 outubro 2014

A Coisa, de Stephen King

postado por Manu Negri



Quando digo que A Coisa é o meu livro favorito, muita gente estranha. "Ué, mas tem palhaços, você tem medo de palhaços. E é um livro de terror."

É difícil mesmo pensar em outra coisa quando lemos a sinopse. "O ano é 1958, e algumas crianças da cidade de Derry começam a desaparecer. Um grupo de amigos percebe que um ser monstruoso, que assume várias formas, especialmente a de um palhaço, é o responsável pelos assassinatos. Juntos, eles se unem para combater a criatura, jurando que, se algum dia ela voltar a Derry, eles deverão se unir novamente para por um fim definitivo ao seu reinado de horror."

Li A Coisa pela primeira vez há mais de 10 anos, quando o livro estava quase entrando para o mundo das raridades (a ser vendido por mais de 100 reais em sebos), e tive a oportunidade de reler há pouco tempo, na edição com nova tradução lançada pela Suma de Letras. Aí pude constatar novamente: "que linda jornada". Stephen King é conhecido como o Mestre do Horror, mas acredito que A Coisa é considerada sua obra-prima (junto com A dança da morte, outro romance incrível) não pelos sustos que a gente leva, mas por se tratar de uma história épica que mistura debates que vão muito além de um palhaço serial killer de crianças. É um drama/fantasia brilhante sobre o poder da amizade.

Na dedicatória, King escreveu: "Crianças, ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bastante simples: a magia existe." Mesmo depois de tantos anos desde que li o livro pela primeira vez, eu ainda me lembrava dos nomes de todos os personagens principais – inesquecíveis e carismáticos a esse ponto – e do clima gostoso de leitura a la Goonies, Super 8 ou Conta Comigo (aliás, também do King), em que eu recordei junto com eles a magia da minha própria infância.

A história de A Coisa é contada intercalando-se duas épocas diferentes. Em 1958, quando o grupo de amigos se forma, funda o Clube dos Otários e enfrenta A Coisa pela primeira vez, e em 1985, quando precisam retornar a Derry já adultos para por um fim definitivo na ~entidade~. Derry, inclusive, é uma personagem à parte: King a descreve tão detalhadamente que só faltou uma página com o mapa, e é isso que ajuda a criar a aura de lugar assombrado. William Denbrough, conhecido como Bill Gago, tem 11 anos e é o líder da turma, aquele carinha corajoso e gentil para quem todo mundo se dirige quando quer conselhos sobre o que fazer. Eddie Kapsbrack, seu melhor amigo, é franzino, frágil, superprotegido pela mãe, sofre de asma e admira imensamente Bill a ponto de dar sua vida por ele. Ben Hanscom é o gordinho que sofre perseguições constantes dos valentões da cidade (os delinquentes em potencial Henry Bowers,  Arroto Huggins e Victor Criss), inseguro e tímido, mas tem um talento nato para construir coisas. Richie “Boca de Lixo” Tozier, o alívio cômico, é o garoto hiperativo que não consegue controlar a própria língua: fala o que não deve nos piores momentos e passa o dia fazendo suas Famosas Vozes, que irritam os outros de vez em quando. Stan Uris, o elo mais fraco, é o cara mais certinho, engomadinho, pessimista e racional de todos. Mike Hanlon, o único garoto negro de Derry que passou a vida ouvindo do pai histórias doentias sobre racismo, encontra nos Otários um lar; foi o único a permanecer na cidade até 1985 e o responsável por reunir todos de volta. Por fim, a menina do grupo: Beverly Marsh, pobre, oprimida pelo pai, corajosa e madura para a idade.

A técnica de Stephen King para nos manter interessados ao longo de um livro de 1.102 páginas é digna de aplausos (a vontade que eu tive era de ler até tomando banho). O jeito como construiu os personagens e como levou ao desfecho da história merece mil e um elogios, mas não acho que A Coisa seja perfeita, apesar de ser o livro mais marcante da minha vida. Há um trecho em particular, mais para o final, que eu e muitos leitores achamos um tanto chocante e desnecessária, mas felizmente não ofusca o brilhantismo do resto do romance. Pela segunda vez, terminei a última página com lágrimas nos olhos (mentira, eu tarra chorando copiosamente mesmo): a sensação é de chegar ao fim de uma jornada homérica ao lado de companhias inesquecíveis, para as quais eu precisei dizer adeus. Pra mim, se um livro te deixa com o coração apertado assim, ele é bom.



A ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

L de losers
A Coisa virou uma minissérie para a TV nos anos 90 e, aqui no Brasil, veio com o título “IT- Uma obra-prima do medo”. Muita gente já assistiu quando era mais novo (inclusive eu, sem nem sonhar que um dia leria o livro), já se cagou de medo do palhaço Pennywise, mas ó, o filme é sofrido. Ruim mesmo. Um cu dendôtro. Mas com muito esforço devo admitir que é uma adaptação decente, apesar de mal executada; preservaram muitos diálogos, se viraram nos 30 em passagens mega difíceis de adaptar, mas também omitiram outras marcantes (COMO assim ignoraram toda a parte da casa da rua Neilbolt?!). Geralmente o livro é infinitamente superior ao filme, e A Coisa não foge à regra. O diretor lamentou muito o resultado do encontro final com a criatura, mas não tinham dinheiro suficiente pra filmar conforme planejado no storyboard e Stephen King disse que, se ele tivesse que escrever o roteiro da minissérie, ela teria 32 horas. Risos compreensíveis.

A boa notícia é que vem um remake por aí! Antes nas mãos de Cary Fukunaga, quem dirigiu a primeira temporada de True Detective, o projeto infelizmente atrasou e agora passou para o diretor do terror Mama, Andrés Muschietti. Reza a lenda que essa nova adaptação será dividida em duas partes (fase criança e fase adulta), mas o que já é certo é que o período da história que se passa nos anos 50/60 será adaptado para a década de 80. Coisas da Warner, como especulam, pra haver uma identificação maior com o público e pra fase adulta se passar nos dias atuais. De qualquer forma, eu torço com todos os dedos das mãos e dos pés cruzados para que dessa vez façam mais jus à grandiosidade do livro. O papel de Pennywise ficará com Bill Skarsgård (eita família talentosa), e já tem gente comparando a carinha dele com a de Tim Curry quando jovem (quem interpretou o palhaço na minissérie).


Essa nova versão do palhaço ficou ótima, na minha opinião. Inicialmente, quando a vi pela primeira vez, fiquei sem saber o que pensar, justamente porque a tendência é fazer uma comparação com a "original". Mas, sendo sincera, o palhaço de Tim Curry nunca foi a imagem que formei na minha cabeça enquanto lia o livro, e acho que esta agora está bem mais fiel, digamos assim. Curti demais particularmente a roupa, bem vintage, o que tem tudo a ver com a história da entidade. Aos poucos, a produção está liberando novidades pra gente, como elenco infantil (já formado) e locações. Se quiser ficar por dentro, indico que siga a fanpage Stephen King's It Remake!


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