04 setembro 2016

Aquarius é isso tudo o que estão dizendo

postado por Manu Negri


Aquarius é o novo filme do cineasta Kleber Mendonça, responsável pelo aclamado O som ao redor, e o único representante do Brasil no Festival de Cannes deste ano. Na Europa, com sua exibição no evento, Aquarius surpreendeu pela sua incrível qualidade enquanto obra cinematográfica; no Brasil, ficou conhecido depois da equipe e elenco fazerem uma manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff e o golpe parlamentar, no tapete vermelho. O velho blablablá de gente inflamada, comum nesse furacão de acontecimentos políticos – "mamam nas tetas do governo corrupto para defendê-lo", "se beneficiaram da Lei Rouanet", etc. –, levou a uma grande promessa de boicote ao filme assim que ele estreasse no Brasil. Inclusive, parece que aconteceu uma treta envolvendo a comissão responsável por indicar a obra nacional que concorrerá a uma vaga para disputar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: entre os membros deste ano, havia um crítico cujo trabalho aparentemente não é muito respeitado pelos colegas de profissão, que atacou por meses Aquarius e seus realizadores sem ter assistido ao filme. Eita.

Cartazes em Cannes: "Há um golpe ocorrendo no Brasil"
De acordo com o quadro de cotações do Screen Daily, Aquarius foi o quinto longa mais bem avaliado, entre os 21 que competiam pela Palma de Ouro (o prêmio mais prestigiado). Além disso, a imprensa e muitos críticos apostavam em Sônia Braga como vencedora na categoria Melhor Atriz (acabou perdendo para a filipina Jaclyn Jose, de Ma'Rosa). E isso já diz alguma coisa, considerando que Cannes é um dos festivais de cinema mais importantes do mundo. Se não for o mais importante.

Todo esse conjunto de coisas foi o que me levou à comparecer à primeira sessão da estreia do filme no Espaço Itaú de Cinema da Augusta, mesmo com o ingresso custando absurdos R$ 33 (bicha, por favor, que que isso?!). Deixando posicionamentos políticos do diretor ou elenco de lado, o que interessa é avaliar o que está sendo contado no filme, e como está sendo contado.

Aquarius é dividido em três capítulos. O primeiro, chamado "O cabelo de Clara", se inicia na década de 1980, onde conhecemos a protagonista Clara, ainda bastante jovem e flertando com um visú Elis Regina: cabeça máquina 2. O cenário é a festa de 70 anos de tia Lúcia, dentro do apartamento do edifício que dá nome ao filme. Enquanto os filhos de Clara leem cartas cheias de carinho e orgulho pela trajetória de vida da tia-avó, a aniversariante se distrai observando uma cômoda num dos cantos da sala e pegando o espectador de surpresa: ela está relembrando momentos intensos de sexo sobre o móvel, décadas antes. Gente, vovós também transam ou já transaram, viu?

Em seguida, o marido de Clara agradece a presença de todos e alfineta aqueles que não estiveram próximos durante o tratamento de câncer de mama da esposa. A cena posterior já nos mergulha nos dias atuais, porém no mesmo apartamento de frente para a Praia de Boa Viagem, em Recife, com uma Clara sessentona, vivida por Sônia Braga, de cabelos enoooormes. Pra mim, é aí que o filme mostra a que veio: nos contar um a história sobre ressignificação, memórias e como elas podem ser tão particulares a ponto de representarem um mundo inteiro pra gente.


Clara é uma mulher à frente do seu tempo e, a meu ver, seus cabelos longos são um símbolo de sua força adquirida ao longo dos anos e que a levou a ser o que é: corajosa, resistente, afetuosa (e um pouquinho marrenta). Agora, viúva, e com os filhos independentes, ela mora completamente sozinha em um prédio de apartamentos vazios. Mas Clara parece não se importar. Vai à praia pelas manhãs, faz atividades físicas com a comunidade, bate papo com seu amigo bombeiro e salva-vidas e tem uma rotina de afeto e fraternidade com a empregada doméstica há quase 20 anos. Mas, tão importante quanto isso tudo, Clara tem a companhia de seus móveis antigos e de sua coleção de discos de vinil: um resquício da época em que foi jornalista e crítica musical. Uma enorme fonte de memórias e de histórias vividas dentro e fora daquele apartamento e que constroem sua identidade.

Porém, sua rotina pacífica é interferida quando uma construtora a pressiona para vender seu cafofo com o objetivo de construir um edifício muito mais moderno no local. Mas quem disse que histórias podem ser compradas? Sem entender isso, o arquiteto responsável pela negociação, interpretado por Humberto Carrão – cujos olhos demasiadamente separados um do outro me causam mal-estar –, intensifica suas investidas passivo-agressivas (rs) e revela que o jogo sempre pode ficar mais sujo quando é preciso conseguir o que queremos.

No fim das contas, Aquarius é muito mais sobre a protagonista do que sobre o próprio edifício. Ou seria Clara uma analogia ao prédio; um lugar que não quer se livrar de suas marcas? Aquarius é Clara? Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

(reflitam)

Falemos de Sônia Braga, que está absolutamente deslumbrante. E não digo só em relação à sua beleza, mas ao trabalho excepcional que nos apresenta aqui, repleto de naturalidade e verdade. Ela carrega Aquarius, mas isso não significa de forma alguma que o filme só fica bom por causa dela; é como um desses mágicos encontros entre personagem bem construído e interpretado e uma direção segura. Há uma cena em particular de confronto entre Clara e sua filha, em que Sônia está dando uma dura nela e um fucking segundo depois engole seco, perde a voz, treme a boquinha e chora com tanta credibilidade que eu acabei chorando junto, maravilhada. É uma entrega de sutilezas, detalhes e olhares que merece muito ser aclamada.  

Por fim, aproveitem a viagem e se deliciem também com a trilha sonora. Eu, que não sou tão chegada assim em MPB (não me julguem), repeti em minha mente as músicas e as cenas que as acompanharam, entendendo como elas foram elementos importantes para contar essa história, relacionando-se intensamente com Clara e com o espaço em que ela vive.

"Quando você não gosta, é velho. Quando gosta, é vintage".





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