23 setembro 2017

Mamãe do céu, vamos falar de "mãe!"

postado por Manu Negri


Depois de imergir os pezinhos em sais e dormir uma noite honesta de sono, acho que é hora de falar de mãe!, novo filme do meu querido Darren Aronosfky que merece ser apreciado, absorvido e debatido depois de esfriar um pouco a cabeça.

Coisa que geralmente não faço, pois, de ansiosa e fogo no brioco que sou, saio da sessão e:

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Mas mãe! (assim mesmo, em minúsculo, com exclamação) é uma loucura generalizada que só te deixa respirar quando os créditos sobem. Foi, de fato, preciso algum tempo para poder assimilar tudo (ou melhor, grande parte) que estava em tela. Habituado a retratar a degradação da estrutura psicológica/emocional humana, como fez muito bem em Réquiem para um sonho e Cisne Negro, Aronofsky repete a dose aqui (e quando digo repetir, não é fazer igual) com sua protagonista interpretada por Jennifer Lawrence, dentro dos moldes de um horror movie. Submissa e doce, ela vive sua rotina cuidando impecavelmente da casa que divide com o marido poeta (vivido por Javier Bardem) no meio de uma área verde, enquanto ele tenta escrever sua segunda e desejada grande obra. Num belo dia, a paz entre eles é prejudicada pela chegada de um desconhecido (Ed Harris), que pede estadia ali por um tempo. A partir daí, J-Law vai entrar numa montanha-russa de emoções junto do público.

A sinopse é suficientemente misteriosa. E, se antes eu achei que o trailer (ao fim deste texto) talvez entregasse demais, eu não poderia estar mais enganada: nenhum dos dois mostra 10% do que o filme significa.

mãe! não é para todo mundo. E não é pra isso soar pedante, como se só os inteligentões fossem capazes de gostar da obra, mas é só uma constatação de que o público blockbuster não está acostumado a encarar um filme com muitas camadas. Como disse Pablo Villaça, a maioria dos espectadores enxerga cerca de 20% de um filme, que é o que está sendo esfregado na nossa cara. Com a prática a gente melhora nisso, mas entender o uso da iluminação, do ângulo de uma câmera em determinada cena, a forma como uma trilha sonora entra etc. e como isso nos afeta na absorção da história são os outros 80%. E em mãe!, mais do que enxergar essas coisas, é fundamental perceber as alegorias pra poder avaliá-lo honestamente. mãe! é um emaranhado de alegorias.
  
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAli Babá o califa tá de olho no decote dela
Talvez por isso, o filme esteja dividindo opiniões desde suas primeira exibições fora do circuito comercial. Uma vibe meio "amor ou ódio". Ama quem juntou as peças e visualizou a história contada sobre elas. Odeia quem não entendeu nada disso e só assistiu a um filme extremamente confuso e surrealista; odeia quem entendeu, mas ficou ofendido; odeia quem entendeu, não se ofendeu, mas achou tudo muito pretensioso. 

Eu tenho um pouco de problema com a associação de pretensão dentro do contexto cinematográfico com algo negativo. Quero mais é pretensão num filme mesmo, ô caralha. Apesar disso, entendi o ponto de vista de que talvez mãe! queira parecer mais inteligente do que é; ele precisa e se apoia nas figuras de linguagem pra poder funcionar, ao mesmo tempo em que pode ser perfeitamente crível que o filme tenha sido concebido justamente pra se sustentar nessas figuras. Não vejo problema.

De qualquer maneira, mãe! tem todos os méritos pelos elementos técnicos. Em uma atmosfera sufocante, ambientado unicamente no casarão, o filme desembola acontecimentos bizarros a partir da entrada do tal desconhecido na rotina do casal principal, mas sempre sob o ponto de vista da personagem da J-Law. Me remetendo um bocado a Cisne Negro, é lindo ver como a câmera parece dançar em volta da atriz, quase sempre colada em seus ombros/nuca ou enquadrando seu rosto em close-ups que mostram pouco do que acontece ao seu redor, potencializando a sensação de aprisionamento. Aronofsky quis que sentíssemos o que ela sentia, numa constante impressão de que algo inesperado e ruim está pra acontecer. A casa, aliás, é um personagem igualmente vívido, ajudado pelo design de som que imprime farfalhares, batidas de coração e estalos em contraponto à ausência de trilha sonora. 

E, se a primeira metade do filme é lembrada por longos momentos de silêncio inquietante, a segunda - principalmente o terceiro ato - é repleta de caos. A transição é quase brusca, como dois filmes dentro de um só; no entanto, logicamente proposital, como entenderá adiante.


AS SIMBOLOGIAS


Tire as crianças do recinto, que os spoilers chegaram. Acho bom você já ter assistido ao filme.

Uma das interpretações de mãe! é a relação artista x obra x musa inspiradora. Se a personagem da J-Law é considerada a principal inspiração do poeta por ele mesmo e por sua editora, representada pela Kristen Wiig no terceiro ato, a revelação da gravidez da mãe é a concepção do novo poema. O bebê, portanto, é a obra em si, desassociado da inspiração que o gerou para nutrir o público ávido pela arte. A outra alegoria, mais óbvia e mais forte, na minha opinião, é a bíblica; mas as duas interpretações acabam se fundindo um pouco quando consideramos que ambas tratam de uma Criação: a primeira pelo viés da representação artística e, a segunda, da religiosa.

mãe! é uma grande metáfora à história da bíblia. A mãe, personagem da J-Law, nada mais é que a Mãe Natureza (minha cabeça explodiu quando revi o pôster do filme), cuja principal missão na primeira metade da projeção - o Antigo Testamento - é zelar pela casa, que simboliza o planeta Terra, ambos criados obviamente pelo Deus Javier Bardem. Interessante lembrar, aliás, que nenhum personagem no filme tem nome: são apenas mãe, Ele, homem, mulher, Devota, Bom Samaritano, Fornicador etc., reforçando esse olhar sobre a história.

Repare como as árvores, arbustos e relva ao redor da casa remetem ao Éden ou ao próprio Paraíso, um lugar divino e imaculado. Nesse processo do Gênesis, surge Adão (o visitante desconhecido Ed Harris) que, após uma noite passando mal no banheiro e com uma ferida na costela, recebe sua esposa Eva - vivida por uma Michelle Pfeiffer atrevida e curiosa, fazendo alusão à tentação pregada pela serpente. Não demora muito, então, para associarmos a pedra preciosa que Ele guarda com tanta devoção em seu escritório ao fruto proibido, que "Adão" obviamente quebra e os leva à expulsão. Nesse contexto, já não é estranho que depois mãe encontre os dois prestes a fazer sexo, e muito menos que Caim e Abel apareçam, culminando na morte deste último (nesse momento, acho que me urinei). O velório sequencial, com a família presente, é a humanidade começando a se espalhar (descendentes do casal primordial) pela Terra.

Cada vez mais confusa, Mãe Natureza não entende como essas pessoas conseguem fazer o que bem querem com a casa, sem respeito ou cuidado (taí mais uma reflexão, dessa vez voltada para a nossa relação com o meio ambiente), somente considerando impulsos egoístas. Aquela ferida sangrenta no chão de um dos quartos faz alusão à violação da raça humana à terra (posso estar viajando, mas o formato dela me lembra uma vagina). Portanto, é na cena da quebra da pia e da fúria surpreendente da Mãe Natureza (outrora sempre gentil) que temos a representação do Dilúvio. Lá fora da casa, inclusive, está chovendo. E, aí, os humanos desaparecem, fechando o Antigo Testamento. 

Não é à toa a transição "destoante" do filme para a sua segunda metade: tem-se o início do Novo Testamento com a Mãe Natureza grávida de Deus após uma curiosa resistência deste em procurá-la para tentar um filho, em detrimento da sua preocupação egocêntrica em escrever sua grande obra. Vale pontuar aqui como é interessante a forma com que Aronofsky cria um Deus narcisista, viciado em ser adorado, mas que nunca cai na vilania fácil graças ao trabalho preciso do Javier Bardem (talvez, se tivesse caído, o filme tivesse ainda mais críticas negativas). 

Eu me apaixonei pela maçã errada
Simbolizando, a meu ver, TAMBÉM a Virgem Maria nesse momento da história, a mãe acompanha Ele enfim terminar seu novo grande poema (a Bíblia), que é publicada pela editora Kristen Wiig, representando a Igreja. É aí que os inúmeros leitores, ou melhor, adoradores, começam a invadir a casa em uma sequência pandemônica de cenas, em que quebram móveis, roubam objetos e destroem cômodos como se o espaço fosse exclusivamente deles, traçando um paralelo com o que os humanos fazem com a Terra até hoje. O antagonista do filme somos nós mesmos, seu público.

Há os fanáticos religiosos sendo abençoados por Ele, representações de líderes religiosos (como o personagem de Stephen McHattie, que está descrito como Fanático nos créditos), conflitos religiosos, guerras (quantas não foram em nome de Deus?), caça às bruxas, feminicídio (lembram como mulheres são retratadas na História?), e manifestações violentas. Em meio a esse cenário, Ele consegue resgatar a mãe, que está em via de dar à luz, e a leva para seu escritório, que se revela o lugar mais seguro da casa. E qual o melhor lugar para ela parir a criança, senão o escritório, onde Ele passou meses escrevendo sua grande obra?

Nasce um menino (Jesus), quem mãe quer proteger a todo custo do resto do mundo, mas, em um descuido, deixa que Ele o tome nos braços e o apresente à multidão enlouquecidamente devota, em uma clara analogia ao momento em que Deus entrega seu filho à humanidade e o vê morto (repare que o bebê, de braços abertos como numa crucificação, é passado de mãos em mãos antes de seu pescoço quebrar). Quando as pessoas se alimentam de sua carne ("Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele"), a mãe entra em colapso, resultando em mais mortes por obra dela e no chão da casa se partindo, como se catástrofes naturais fossem uma resposta da Mãe Natureza às ações do homem.

É aí que mãe é espancada pela humanidade, numa das cenas mais chocantes do filme (talvez mais um simbolismo, além da terra/natureza, à Maria Madalena e à Mulher como figura no mundo). Por mais que Ele a retome mais uma vez, é intrigante como aqui Deus cria, mas também se ausenta, talvez simbolizando o livre arbítrio da humanidade. Porém, esse livre arbítrio leva a comportamentos humanos com consequências terríveis, e quem as sofre somos nós e a Mãe Natureza. Ele é o criador, mas não assume responsabilidades pela sua criação. 

No fim do terceiro ato - o Apocalipse -, mãe provoca um incêndio na casa, dizimando todos. Dizem que o fim do mundo será com fogo, não? risos A natureza realmente não perdoa, e prefere destruir a si mesma do que deixar que outros continuem a destruindo. É então que o filme revela o que já é subentendido: toda criação é um ciclo. Se Ele é Deus e a mãe é a essência da criação, é a partir dela que tudo é criado e renovado: seu coração é retirado de seu corpo moribundo, transformando-se na mesma pedra preciosa protegida no escritório da casa, agora também se recompondo junto de outra Musa/Mãe Natureza, que (re)nasce.

Li que alguém leu que existe uma tradução alternativa do primeiro verso da Bíblia: em vez de "No começo", ele diz "Em um começo", implicando que Deus criaria mundos várias e várias vezes.

"Do pó viemos e ao pó voltaremos".

AMÉM, ARONOFSKY.




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