05 novembro 2017

Uma aula de roteiro em MINDHUNTER

postado por Manu Negri


Por favor, não me ache uma doente pela declaração que dou agora, mas eu adoro serial killers.

Não sei explicar, mas simplesmente sou acometida por um grande fascínio quando começo a pesquisar sobre crimes, motivações, investigações, metodologia do criminoso e, claro, a psicologia dele. Não é à toa que fiquei deveras empolgada com o anúncio da nova série da Netflix, Mindhunter, que promete mostrar como se deu o processo de um estudo do FBI de tentar desvendar as mentes por trás de alguns dos crimes mais bárbaros da História americana.

E, ainda por cima, é uma produção executiva do David Fincher (de Os homens que não amavam as mulheres, Garota exemplar, O Clube da Luta e Se7en - Os sete crimes capitais), quem dirigiu os dois primeiros e os dois últimos episódios.

Eu não poderia esperar menos de um sujeito com esse currículo. Mas vamos lá: para algumas pessoas, assistir Mundhunter pode requerer certa paciência. O episódio piloto não empolga muito, e a história se desenvolve devagar. O foco não é na ação. No entanto, não desista: a série engaja demais à medida que a gente assiste.

Inspirada pelos relatos do ex-agente John Douglas e do escritor Mark Olshaker no livro Mindhunter - O primeiro caçador de serial killers americano, Mindhunter se passa em 1979 e acompanha os investigadores Bill Tench e Holden Ford interrogando assassinos para resolver diversos casos de homicídio. Holden, vivido de forma incrível por Jonathan Groff - que também foi um dos atores convidados de Glee na época em que eu assistia e OMG o tempo passa, o tempo voa, e estamos todos ficando velhos -, começa a história como um negociador de reféns doce e inseguro, mas com um instinto apurado, determinado a consolidar uma nova unidade do FBI destinada a estudar criminosos extremamente perigosos. Formando uma dupla improvável com o durão e experiente Bill, eles viajam os Estados Unidos de cabo a rabo divulgando a "escola móvel" sobre perfis de assassinos em delegacias de homicídios, enquanto entrevistam serial killers (quando esta expressão ainda nem existia) condenados para registro e mapeamento de seus comportamentos, destrinchando passados e traumas, a fim de encontrar padrões para entender as razões que levaram essas pessoas a fazerem o que fizeram.

Não, Charles Manson não aparece em Mindhunter. Ainda.
Completando a equipe como consultora, conhecemos Wendy Carr, psicóloga comportamental interpretada pela carinha conhecida de Anna Torv, da série Fringe - elegante, inteligente, objetiva e sensata que traz um balanço para a dinâmica entre os protagonistas. Aliás, fazendo um contraponto interessante com as vítimas dos criminosos da série, que são todas femininas, as mulheres principais de Mindhunter são figuras fortes e se encaixariam no pensamento "avançadas para a época".

As entrevistas prendem o olhar não só pelos diálogos precisos, mas por tratarem de histórias de serial killers reais. A primeira e mais marcante, na minha opinião, é a de Ed Kemper, vivido brilhantemente por Cameron Britton - que você pode conferir logo abaixo -, futuro concorrente a Melhor Ator Coadjuvante ou Ator Convidado no próximo Emmy, se a vida for justa. Conhecido como o "Assassino de colegiais", Ed foi retratado como na realidade: um cara à primeira vista simpático, tranquilo e analítico, mas que não somente matou a mãe e os avós quando jovem, como assassinou oito garotas na Califórnia, praticou necrofilia com seus corpos, as decapitou e ainda usou o resto dos membros pra estudar anatomia.



A condução das perguntas, réplicas e tréplicas é muito bem feita. E, se na época a polícia e o FBI num geral tinham um enorme preconceito quanto à inserção da psicologia como meio de decifrar crimes - acreditavam que um criminoso simplesmente nascia mau -, Holden e Bill provam, pouco a pouco, que são as circunstâncias sociais que transformam alguém num homicida. Era o início do que viria a ser a psicologia forense. Quando a dupla precisa ir a campo se envolver em assassinatos locais é que vemos como a teoria é aplicada na prática: a partir da análise da cena do crime, é possível construir o perfil do culpado e filtrar a lista de suspeitos, montar um questionário (que, na verdade, é muito feito de improvisos certeiros) até chegar ao ponto de fazê-lo confessar. 

Esses improvisos, inclusive, são o cerne do estudo do Holden para conduzir uma investigação. Seu método nada convencional contraria não só seus colegas de trabalho, como os bambambãs do FBI, mas ele está convicto de que o caminho é esse. Nós, espectadores, também não temos dúvidas, e chega a ser irritante como ninguém tem a boa vontade de impulsionar o rapaz. No entanto, é aí que percebemos sua mudança gradual e como Mindhunter tem um roteiro espetacular que sabe trabalhar seus personagens. Aqui, a gente olha pra psicologia do criminoso sem esquecer da cabeça dos protagonistas, em um paralelo bem legal da investigação externa vs. investigação pessoal.

Por mais que coletemos as pistas do que compõe o interior da dra. Carr e do Bill - marrento e vulnerável, cujo filho de 6 anos parece incapaz de falar e criar laços emotivos com a família, indicando que o personagem ainda precisa abraçar a psicologia usada no trabalho como força pra desvendar essa incógnita em casa -, a narrativa da série se apoia principalmente no Holden. Ao mesmo tempo em que ele fica cada vez mais metódico, ele não perde a impulsividade movida pela emoção, nos fazendo perguntar "Quem é o Holden de verdade ou no quê ele está se tornando?". Groff soube trabalhar com autenticidade o olhar outrora ingênuo de seu personagem se transformando lentamente em algo frio, egocêntrico, perigosamente determinado, culminando em uma cena reveladora do último episódio. No fim das contas, o carinha com mais sangue frio na hora de entrevistar um mutilador de garotinhas aparentemente é o mais afetado pelo seu trabalho ingrato. Talvez Holden vire uma espécie de antagonista ou só alguém abalado pelo que vivenciou, moldando sua psiquê, assim como seus objetos de estudo foram moldados. De toda forma, é um cliffhanger muito interessante.   

A série é excelente, como eu imaginava, e não deixa ponto frouxo quando cuida da ambientação do fim dos anos 1970, com uma fotografia, trilha sonora, figurino e direção de arte à altura que te colocam na atmosfera do período. A boa notícia pra quem, assim como eu, gostou ou pra quem já tá interessado: Mindhunter começou já sabendo que teria uma segunda temporada. Até lá, já dá pra teorizar sobre o futuro do Holden e sobre o misterioso personagem bigodudo que aparece em cenas curtas de quase todos os episódios.

Voltamos ao assunto no ano que vem. :-)





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