10 janeiro 2018

O PROJETO FLÓRIDA vai partir seu coração

postado por Manu Negri


O complexo Walt Disney World está localizado na cidade de Lake Buena Vista, Flórida, Estados Unidos, próximo às cidades de Orlando e Kissimmee. Neste que é um destino desejado por gente do mundo inteiro, sob o slogan "onde os sonhos se tornam realidade", adultos e principalmente crianças podem aproveitar o melhor de sua infância.

No entanto, não muito longe de lá e à margem de qualquer possibilidade de uma vida abastada e mágica, existe um complexo de hotéis baratos onde moram Moonee (vivida pela SENSACIONAL Brooklynn Prince), uma menininha de seis anos, e sua jovem mãe solteira, Halley. Através de muita câmera de mão e uma pegada meio documental e intimista, você está prestes a embarcar no dia a dia das duas para viver seus dramas e momentos de total ternura.

Estava esperando escrever brevemente sobre esse filme no meu futuro post de apostas do Oscar 2018, mas, infeliz e injustamente, Projeto Flórida não deve concorrer a Melhor Filme. Mas, se eu o tivesse assistido ainda em 2017, com certeza estaria no TOP 3 do meu ano

Sean Baker, responsável pelo lindo Tangerina (todo filmado com celular), não só roteirizou e dirigiu Projeto Flórida, como também fez a montagem. Aqui, ele foi inteligente em apresentar a primeira meia hora do longa quase exclusivamente com cenas protagonizadas por Moonee e seus amiguinhos da vizinhança brincando nos arredores, destruindo coisas e falando muitos palavrões, numa conduta que estranharia qualquer pai e mãe que leva sua cria pra tomar banho de sol no calçadão do Leblon. A princípio, o espectador pode até se questionar aonde o filme está querendo nos levar. É aí que, à medida que ele avança e conhecemos mais a realidade em que estão inseridos, passamos a nos importar consideravelmente com suas vidas. Meu apreço por Projeto Flórida foi uma crescente assustadora.  

Asas rosas de fada não me fazem, necessariamente, viver um conto de fadas
A humanização dos personagens aqui é uma coisa absurda. Halley, ainda que inconsequente e infantil, é uma mulher com pouco pra oferecer, mas inegavelmente ama a filha e tenta fazer o seu melhor para sobreviverem em meio a bicos e atitudes moralmente questionáveis. O administrador do local, Bobby, vivido por Willem Dafoe (que também  merece muito reconhecimento), é extremamente adorável: apesar de razoavelmente rígido com as regras que os hóspedes precisam cumprir, ele se esforça para que o convívio ser pacífico, agradável e possui uma relação de afeto especial com as crianças, agindo como uma espécie de tutor. O pouco que sabemos de seu passado vem de cenas curtas, mas tocantes, que funcionam para montar um background para o personagem. Apesar de estar em outra posição social, é um fodido como os outros.

Me comoveu como o pouco pode significar muito no contexto daquelas pessoas. Além do próprio nome do hotel - Magic Castle, uma alusão ao Magic Kingdom, que inclusive rendeu uma cena hilária no filme -, Bobby pinta o pequeno prédio de roxo numa representação da sua tentativa de trazer literalmente mais COR à vida presente ali; algo reforçado pelas casas coloridas e abandonadas que vemos nos cenários revolvidos pela trupe de crianças: ao mesmo tempo que remetem ao mundo mágico da Disney, afastam completamente uma realidade da outra. Um cupcake sob fogos de artifício vira o melhor aniversário possível. Um incêndio é sinônimo de entretenimento. Banho de chuva na rua vira diversão. Compras de bobagens em loja de R$ 1,99 são o maior acontecimento de um dia. Um café da manhã farto pode ser uma memória inesquecível (aliás, um dos momentos mais bonitos, fofos e tristes do filme). Projeto Flórida é um projeto de uma vida melhor que dificilmente sairá do papel.

Todo esse retrato social pesado é marcado pelos olhos da inocência, com a câmera frequentemente nos ombros, rosto ou na altura do olhar das crianças, que ora encaram cenas duríssimas de assistir, ora se concentram no que sabem fazer de melhor: brincar de bonecas e ver desenhos animados na TV, enquanto o som do que acontece ao fundo da cena é abafado. A sequência final, em que esperança e desesperança se chocam numa das passagens mais "destoantes" do longa - e, também por causa disso, fortíssima -, é de partir o coração. Mas outra coisa que criança sabe fazer bem é imaginar, e, portanto, pode criar o seu próprio final feliz.     

Não sei como Sean Baker conseguiu extrair aquela atuação da Brooklynn; se beslicou o braço dela, ameaçou jogar o cachorro de estimação na carrocinha ou contou uma história de horror, mas, de um jeito ou outro, os dois têm méritos o suficiente para merecerem mil prêmios.






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