09 fevereiro 2015

O iluminado: livro, filme e minissérie

postado por Manu Negri



Um clássico da literatura de horror e um clássico do terror no cinema. Mesmo que você nunca tenha lido ou assistido ao filme de Stanley Kubrick, com certeza já deve ter ouvido falar de O iluminado, que fez e faz tanto sucesso que hoje já se incorporou à cultura pop mundial. O livro foi escrito pelo meu muso Stephen King, em 1977, e, além da adaptação famosa para as telonas, ganhou uma minissérie em 1997 que muitos julgam ser melhor que a versão do Kubrick, inclusive o próprio King. Quer saber por quê? Então segura esses spoilers aí embaixo, champs.

O livro
Na história, Jack Torrance é um homem de infância sofrida e alcóolatra em recuperação, após perder seu emprego anterior por agredir um aluno e quebrar o braço do filho de cinco anos, Danny, em uma de suas crises de descontrole emocional. Arrasado e tentando juntar os cacos da família, sua última esperança é o trabalho como zelador do hotel Overlook durante o inverno, período em que ele fica fechado por causa das tempestades de neve típicas do Colorado. O que Jack não sabe, mas o pequeno e iluminado Danny já prevê, é que há algo vivo e assombroso no Overlook esperando por eles. (gostei desse final de sinopse apelativo ridículo, vou manter.)


Mas e por que Danny é chamado de iluminado? Bom, imagine uma pessoa sensitiva, capaz de saber o que as pessoas estão pensando, ver espíritos e até coisas que acontecerão no futuro. É como o garotinho d’O sexto sentido, mas numa versão 3.0.

Danny, muito apegado ao pai, consegue sentir que passar o inverno isolado no Overlook junto dele e da mãe provavelmente não será uma boa ideia através do seu “amigo invisível”, Tony. Ele costuma visitar a mente do garoto de vez em quando para trazer boas novas, mas, nesse caso, eram todas más (me chuta). No hotel, Jack é instruído sobre seus afazeres, sendo o principal deles regular a pressão da caldeira diariamente para que ela não superaqueça e bote tudo pelos ares. Dick Hallorann, o cozinheiro do lugar, após mostrar todo o estoque de comida à Wendy, a mãe, logo percebe que Danny é um iluminado tanto quanto ele. Antes de deixar o Overlook, espertamente chama o menino pra conversar, explica sobre a tal iluminação e diz pra ele que as coisas no hotel podem assustar, mas não podem machucá-lo. E que, se alguma coisa ruim acontecer, é pra chamar Dick em pensamento.

Dick e Danny batem um papo: "Cê brilha, cara."

É claro que coisas ruins começam a acontecer. Basicamente, o Overlook, para manter a entidade viva que é, se alimenta do dom de Danny; mas, para chegar a ele, precisa usar Jack de escada. Como? Fazendo-o querer beber de novo e deixando-o encontrar uns álbuns de recortes no porão com o registro inteiro da história do hotel para descobrir que, desde 1909 – data da inauguração –, o lugar foi palco de assassinatos, lavagem de dinheiro, máfia e o escambau.


A partir de então, à medida que Jack fica obcecado com o Overlook, sua sanidade começa a degringolar.

Agora, amg, olha nos meus olhos: se você estiver esperando por sustos a cada virada de página, esqueça.  O iluminado se enquadra mais em um terror psicológico que te angustia capítulo por capítulo, sem pressa para criar o ambiente claustrofóbico do Overlook e a sua influência sobrenatural. E é por isso que a história do livro é sensacional: ela se passa inteiramente dentro de um hotel e, ainda assim, consegue te prender.


O filme de Stanley Kubrick
A adaptação de O iluminado de 1980, apesar de aclamada mundo afora como obra cinematográfica, não agradou nem um pouco a Stephen King. Kubrick aparentemente pegou o romance original e o retorceu como bem entendeu (ok, estava em seu direito assim que comprou os direitos do livro), contando a sua própria versão de uma história que era bastante pessoal para o autor. Ou seja, muita coisa do filme tem pouco a ver com o livro do King:

Jack piri-pipi-ripi-piradinho


Enquanto no livro fica extremamente clara a ligação afetiva entre ele e Danny, sua luta contra a força do hotel e sua preocupação com o bem-estar da família, no filme vemos, desde o começo, que Jack é um cara distante e parece ter um parafuso a menos. No entanto, Jack Nicholson e suas sobrancelhas assustadoras sambaram na cara da sociedade hollywoodiana.

Tony é um... dedinho


O amigo invisível de Danny na adaptação é apresentado assim: com o menino dublando o próprio dedo  tipo boneco de ventríloquo, sabe? , quando na verdade Tony é praticamente uma entidade, com corpo e rosto, responsável pelas maiores visões premonitórias de Danny.

Wendy é uma banana


Uma das grandes reclamações de Stephen King é que Kubrick retratou Wendy no filme como uma songa monga amedrontada que só sabe chorar e gritar. E é verdade. No livro, Wendy pode até parecer amedrontada (quem não ficaria cagado naquele hotel?), mas em momento algum deixa de enfrentar Jack com firmeza e de tentar resolver a situação. No filme, aliás, ele não chega a tocar em um fio de cabelo dela; no livro, coitada, a bichinha fica arregaçada. Haja sangue e costelas quebradas (e detalhe: nada de machado. A arma original é um taco de roque).

Dick Hallorann é dispensável


No livro, Dick simplesmente é o personagem responsável por salvar Wendy e Danny do Overlook, nas últimas páginas. Quando o hotel começa a se reerguer das profundezas do inferno e deixa Jack completamente transformado, o menino chama mentalmente por sua ajuda. No filme, Dick mal põe os pés de volta ao hotel e é morto por Jack.

Que labirinto é esse?


O labirinto – que se torna peça fundamental para a fuga de Danny – não existe no livro. O que existe, e foi suprimido no filme, é um jardim de topiaria que protagoniza uma das cenas mais assustadoras do romance (bom, pra mim). Nela, os animais de arbustos “ganham vida” e perseguem Danny e Jack no melhor estilo “esconde esconde” do filme O Orfanato.

O sangue no elevador não existe


Lembra daquela alucinação de Danny, do elevador principal do hotel se abrindo com uma enxurrada de sangue? Pois é, invenção do Kubrick pra nos perturbar.

As gêmeas do corredor não existem


Quer dizer, mais ou menos. As meninas, no livro (que são irmãs, mas não gêmeas), são citadas no trecho em que contam ao Jack que o antigo zelador do hotel enlouqueceu devido ao período de isolamento (que coisa, não?) e matou a família inteira. Mas para por aí: elas nunca mais aparecem.

O desfecho do filme


Kubrick colocou Jack Torrance perseguindo Danny durante a noite no labirinto até se perder e morrer congelado. Esse é o fim do personagem. No livro, as coisas acontecem de maneira completamente diferente: Jack, possesso e desesperado para dar um fim em Danny e servir ao Overlook, esquece de abaixar a pressão da caldeira. O resultado é esse que você está pensando: o hotel explode, matando-o, logo depois de Dick levar o garoto e sua mãe pra um lugar seguro.

No entanto, apesar dessa versão de O iluminado dar rumos tão diferentes para a história, o filme continua incrível. As cenas de Danny circulando de velocípede pelos corredores, de Jack encontrando a mulher da banheira do quarto 237 e a clássica machadada na porta são icônicas.



A minissérie de Mick Garris
Inconformado com O iluminado de Kubrick, Stephen King resolveu, em 1997, produzir sua própria adaptação do livro, que foi ao ar apenas na TV em 3 episódios de 1h30 cada.

A minissérie dirigida por Mick Garris (também responsável por outras adaptações de obras de King, como A dança da morte, Saco de ossos e Desespero), para a alegria de alguns muitos fãs, ficou extremamente fiel à história original. Mas, como obra audiovisual, é de fato inferior a O iluminado de 1987. 

Um fato curioso é que, enquanto o Overlook da versão do Kubrick era uma locação, um cenário, o da adaptação de Garris existe na vida real. E melhor: foi o hotel onde Stephen King se hospedou com sua esposa e que lhe rendeu inspiração para construir a história de O iluminado.

Hotel Stanley, o paizão.

E justiça foi feita: Steven Weber convenceu (há quem discorde?) como o Jack do livro, um homem com demônios a esconder, infeliz, fracassado, mas que tenta ao máximo ser um pai amoroso e bom marido. Uma vítima do hotel, como os outros personagens.

Jack Torrance como deve ser: humano

Acompanhamos a sua evolução (ou seria involução?) à medida que o Overlook ganha vida e entendemos perfeitamente que o iluminado da história é Danny, e não Jack. Li algumas opiniões de pessoas que, ao assistirem à primeira versão, não haviam entendido direito esse aspecto, de tanto destaque que o Kubrick deu ao personagem de Jack Nicholson.

O menino, interpretado por Courtland Mead, parece ser mais velho que a criança do primeiro O iluminado. Por ter muito mais falas que o antecessor, a gente percebe que a atuação não é lá essas coisas, mas é importante por entendermos como ele reage diante dos fenômenos do Overlook e do novo comportamento do pai. E, principalmente, porque o Danny do livro simplesmente fala.

Houston, temos um problema: minha beiça nunca fecha

Desde o começo, a minissérie vai te preparando para encarar o que virá do Overlook, transformando-o em uma típica casa mal assombrada, com direito a portas se fechando, luzes apagando e cadeiras balançando. Eis o grande vilão da história.


Dick (bem vivo da silva, porém espancado por Jack), Wendy (nossa mulher forte, independente e, inclusive, bonita) e Danny assistem ao Overlook morrer, junto com Jack  – que se recusou a matar o filho e inclusive pediu para que ele fugisse antes que não conseguisse mais controlar as forças do hotel sobre si.

Mas, fidelidades ao livro à parte, nem tudo é perfeito:


Quem nasceu Steven Weber nunca será Jack Nicholson nessa cena memorável dirigida por Mick Garris.

No fim das contas, a conclusão é essa: quem procura um bom filme de terror, vai atrás da adaptação do Kubrick. Quem quer ver a história do livro e o Stephen King entrando de penetra em uma das cenas, assiste à versão de 1997:

Boo!

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P.S: A continuação de O iluminado, Doutor Sono  que se passa mais de 30 anos depois do Overlook –, foi lançada no Brasil este ano pela Suma de Letras. Clique aqui para saber o que eu achei :)


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