08 maio 2015

Doutor Sono: a continuação de O iluminado

postado por Manu Negri

Rose, a Cartola, fumando um baseado
Danny Torrance, o garotinho do clássico O iluminado, agora é Dan, um homem de meia idade que tenta deixar pra trás os demônios vividos na época do Hotel Overlook. Lançado quase 4 décadas depois de seu antecessor, Doutor Sono foi esperado ansiosamente por leitores no mundo todo e, quando comecei a ler os primeiro capítulos, tive a certeza de que ele iria superar a história anterior. Bom, me enganei. Quem me conhece sabe o quanto sou fã de Stephen King e amo seus livros, mas achei Doutor Sono apenas OK.

"Dan já está crescido e usando seus poderes para o bem, ao ajudar os moribundos de um hospital a atravessar para a pós-vida em paz. Entretanto, uma antiga raça de seres que sugam a energia psíquica das pessoas iluminadas, o Verdadeiro Nó, está à solta e em busca de novas vítimas para poderem se alimentar — em especial, uma garotinha de doze anos, chamada Abra Stone, cujos poderes são maiores até mesmo do que os de Dan." 

Após uma espécie de breve epílogo de O iluminado, com Danny e sua mãe salvos do Overlook e tentando recomeçar suas vidas, a história começa muito bem posicionando o contexto do jovem Dan em seus 20 e tantos anos: praticamente um nômade, solitário e alcoólatra, exatamente como Jack Torrance foi, tentando literalmente afogar em bebidas a sua iluminação e as feridas do passado. Quando ele, enfim, se instala permanentemente em uma cidadezinha dos EUA, começa a sua luta pela sobriedade e seu trabalho como enfermeiro em um asilo local, onde Dan ajuda pacientes terminais no processo de transição entre vida e morte por meio de seus poderes psíquicos, tranquilizando-os.

Paralelamente, somos apresentados à menina Abra desde seu nascimento, onde percebemos a sua iluminação extremamente poderosa e a isca perfeita para o Verdadeiro Nó. Ela e Dan se encontram 12 anos depois para, juntos, encontrarem os membros desse grupo, composto por aparentemente inofensivos viajantes em trailers. Seres vampirescos e centenários, eles sobrevivem se alimentando do vapor que pessoas iluminadas exalam quando morrem  e, quanto mais torturadas, mais vapor. Taí o ingrediente macabro que é marca registrada de quase todo livro do King.


Mas por que só OK? Bom, por mais que a trama pareça bem surreal e interessante, tive a impressão que foi tudo meio superficial. A cabeça do Verdadeiro Nó, chamada de Rose, a Cartola, é uma personagem nojenta, manipuladora e sanguinária, mas em nenhum momento me assustou. Os vilões do livro mais parecem vilões de um filme de Sessão da Tarde, o que ajudou nessa minha percepção de que a história não passava de uma aventura inofensiva, o que é incomum quando leio os livros densos e repletos de drama do King. Prende a atenção e te faz querer saber constantemente o que vai acontecer na próxima página? Sim. Mas, pra mim, é requisito básico.

Também achei que o tema que dá título à obra foi mal aproveitado, não havendo uma conexão forte com o que acontece no enredo principal. Fico me perguntando (na verdade tenho é certeza) se não era só um jeito de linkar Doutor com Doc, o apelido que Dan tinha quando criança, traduzido pra cá com toda a razão para "Velhinho" (What's up, doc?, dos desenhos do Pernalonga).

Talvez, se essa continuação fosse mais focada no Danny e em seu processo de enterrar o que aconteceu no Overlook, sem envolver uma história com outras personagens, ela seria mais bem sucedida. A inserção do hotel nesse enredo ficou fraca e um pouco forçada, apesar do desfecho bonito, até. Mas nada épico.

No mais, leitura recomendada, ainda sim, sim, senhor.

"A vida era uma roda que sempre voltava ao mesmo lugar."




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