27 dezembro 2015

O melhor romance do ano se chama Carol

postado por Manu Negri


Não que eu tenha visto todos os romances de 2015. Ou que eu queira ser sensacionalista. Mas Carol tem sido assim considerado por muita gente que assistiu, entre imprensa em geral e críticos de cinema, desde sua estreia em maio no Festival de Cannes. E também não creio que esse título seja injusto. Ganhador de vários prêmios desta recente temporada e um dos cotados a Melhor Filme do Oscar 2016 (falei aqui), Carol é simplesmente belo em todos os seus detalhes.

Sabe um desses incomuns exemplos em que o filme consegue ser melhor que seu livro? Pois então. Baseado na obra de Patricia Highsmith, "O preço do sal" (falei aqui) – e já comercializado com o título "Carol" –, a história acompanha o desenrolar do relacionamento entre duas mulheres na década de 50 em Nova York. A primeira vive um casamento sem amor, e, a outra, é uma jovem vendedora de uma loja de brinquedos que sonha em ser fotógrafa. Cate Blanchett e Rooney Mara dão vida à Carol e Therese, respectivamente, em duas atuações que vão arrebatar seu pobre coração.

Todd Haynes é conhecido por dirigir personagens femininas à frente de seu tempo, como a mãe solteira dos anos 30 na minissérie Mildred Pierce, e a esposa exemplar que se envolve com um homem negro na sociedade super-racista de Longe do Paraíso. Em Carol, não é diferente. Acho errado classificá-lo como "romance lésbico" porque, independente se o casal do filme é hetero ou não, uma história de amor continua sento uma história de amor. No entanto, o que conduz este filme é justamente o fato do relacionamento ser entre duas mulheres, em uma época em que a homossexualidade era sinônimo de doença.

A primeira cena de Carol enquadra o que parece ser uma imponente grade de um portal, mas que, em um movimento de baixo para cima, revela-se o tampo de um esgoto, para surpresa de quem assiste. A associação desses dois ângulos de uma mesma imagem traz significados tão ricos que eu, pequena Padawan cinéfila que sou, já vinculei à forma com que um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é encarado por quem o vive e por quem o vê de fora – principalmente há mais de 60 anos. Como, então, Carol e Therese tentavam dizer uma à outra que estavam se apaixonando, sem terem que usar palavras que, precipitadamente, poderiam arruinar suas vidas? Uma das primeiras cenas já introduz a resposta: quando Therese e alguns amigos estão no cinema, um deles diz que está traçando um paralelo entre o que os personagens do filme dizem e o que sentem. E é basicamente isso. Como li em um texto meses atrás: Carol é uma lenta dança de desejo mútuo; são gestos, olhares e conversas que sempre querem significar algo a mais.

E Carol, a personagem, é uma mulher de gestos refinados e postura impecável, ensinada desde sempre a ser boa esposa e boa mãe, mas profundamente infeliz pela vida de aparências que é obrigada a viver. Em sua missão de comprar um presente de Natal para a filha Rindy, de 4 anos, ela encomenda um trenzinho com Therese e, sem querer ou não (provavelmente não), deixa suas luvas no balcão de vendas, levando a moçoila a devolvê-las posteriormente. Desde a primeira interação entre ambas, o fascínio é recíproco. Carol está em processo de divórcio e Therese tem um namorado por quem tem, no máximo, um carinho fraternal; mas aos poucos, entre um almoço, uma troca de presentes e algumas visitas, ambas compreendem o que estão sentindo e se deixam ser quem realmente são.

A gente te entende, Terry
 
A fotografia de Ed Lachman em sua Super 16 mm, colocando as personagens em cantos e através de janelas de carros e vitrines, como se estivessem literalmente afastadas do meio em que vivem, é um primor. A reconstrução da cidade da época é irretocável com seu design de produção. O figurino da britânica Sandy Powell é impressionante; aliás, quando que Sandy Powell não arrasa, não é mesmo? Aqui, como bem observado pelo Pablo Villaça, ela coloca Carol constantemente vestida de vermelho – e sabemos que vermelho é a cor da paishaum –, remetendo ao despertar sexual de Therese. O roteiro, que demorou quase 20 fucking anos para ser concluído pela Phyllis Nagy, constrói com paciência a evolução do relacionamento e das personagens em si, além de fazer um jogo interessante com uma cena que acontece no início do filme e se repete no final, trazendo uma interpretação completamente diferente do que acontece. Como já disseram por aí, a expressão "Eu te amo" nunca teve tanto timing ou foi executada com tanta pungência como em Carol.

A cereja do bolo, por fim, fica por conta da linda trilha sonora de Carter Burwell, que a idealizou a partir de solos de dois instrumentos que representassem as emoções de Carol e Therese, que vão além das palavras (ouça aqui, pelo Spotify). É tocante perceber como a base melódica das canções é a mesma, mas se transforma dependendo do que acontece em cena; quando Carol e Therese fazem amor pela primeira vez (AI QUE ROMÂAANTICARR), por exemplo, a música fica mais suave e alcança notas mais prolongadas, traduzindo o sentimento de plenitude daquele momento. Ou mesmo na cena que é, até então, a minha favorita: quando Therese entra pela primeira vez no carro de Carol e as duas estão, enfim, sozinhas uma com a outra, como que protegidas sob uma redoma. A música entra e o som se sobrepõe às falas de Carol, em meio aos olhares alegres de Therese sobre o rosto dela, o detalhe do seu casaco, as luvas, a mão no volante. Ela está completamente maravilhada. E eu também.

"Acredite, eu faria tudo para vê-la feliz. Então, faço o que posso: eu te liberto."



 

Carol estreia nos cinemas brasileiros dia 14 de janeiro.


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