25 junho 2017

AO CAIR DA NOITE é mais um filme do "novo terror"

postado por Manu Negri


Quando falo "novo terror", me refiro à recente leva de filmes do gênero que estão deixando de usar jump scares e outros elementos convencionais para focar em um terror sugestivo, psicológico, que prefere usar o seu clima angustiante como forma de assustar e deixar o público tenso; muitas vezes evitam mostrar o inimigo, monstrinho, espírito, zumbi, the monho ou outra coisa qualquer. E, mais do que isso, fazem da sua atmosfera um pano de fundo pra revelar um drama mais profundo ou uma crítica social. Os exemplos estão aí: Boa noite, mamãe, Raw (ou Grave), Corra!, O Babadook, Corrente do mal, A bruxa.

Falando em A bruxa (da mesma produtora deste aqui, a A24), senti um forte déjà-vu ao fim da sessão quando comecei a ouvir alguns murmurinhos de pessoas insatisfeitas. "Que filme horrível", "Isso não é terror", "Perdi meu tempo". Elas, que esperavam outra coisa de um longa de terror estranhamente exibido em somente um cinema da rede Cinemark de Belo Horizonte (aparentemente, culpa da Diamond Films, que tem pouca força no mercado). Que estão acostumadas aos tais enlatados que vez ou outra comento aqui no blog, com conceitos entregues de bandeja para servir ao entretenimento puro. Não estou dizendo que quem gosta de consumir apenas esse tipo de cinema está errado, óbvio, mas é injusto dizer que obras como Ao cair da noite são ruins porque não explicam o que você vê em tela. Sinto falta de mais reflexões sobre o que acabamos de assistir; de afastar a preguiça de pensar que toma conta de boa parte do público que faz questão de gastar dinheiro em um ingresso; porque esse filme pede justamente isso: reflexões.

VOU NEM MENCIONAR ROTTEN TOMATOES.

Ao cair da noite nos convida a acompanhar uma família composta por Paul (Joel Edgerton, de Loving - preciso seguir a filmografia desse cara!), Sarah e Travis, que tenta sobreviver em um mundo pós-apocalíptico em que a população está sendo dizimada por causa de uma misteriosa doença altamente contagiosa. Para se protegerem, eles usam máscaras de gás, trancam as portas e janelas da casa que transformaram em lar, sempre saem em dupla e nunca, nunca saem à noite, exceto em casos de extrema urgência. Mesmo com pouca comida e água, tudo vai relativamente bem até que a ordem pré-estabelecida entre os três é abalada com a chegada de um homem, Will, que pede abrigo ao provar que não está contaminado.

Este é apenas o segundo longa do roteirista e diretor Trey Edward Shults (o primeiro, Krisha, também foi bem recebido pela crítica e está na Netflix), mas o sujeito já está com um currículo aparentemente de dar inveja. Aqui, ele realiza um belo trabalho de construção de clima onde o que mais importa é a viagem, e nem tanto o destino, sob o ponto de vista do espectador. Paranoia e apreensão constante de que algo aconteça dão o tom, como um bolha esperando ser estourada. O que está lá fora? Will está sendo sincero? Ele está escondendo alguma coisa? Por quê? Como eu insinuei, Ao cair da noite não está preocupado em dar respostas e, entre provocações e coisas não ditas, parece querer deixar o público chegar às suas próprias interpretações sozinho.

Há a dicotomia da luz e da escuridão (muito bem manipuladas na fotografia) – a história pode ser tanto sobre estar no breu tanto quanto sobre encontrar a claridade. Há o homem branco, chefe da família composta por uma esposa e um filho negros, que dita as regras sempre que pode. E engana-se quem pensa que o protagonista de Ao cair da noite é Paul; os enquadramentos lentos em Travis, a importância dada aos seus pesadelos, sua solidão dentro daquela casa enorme, sua posição como objeto superprotegido do pai e o despertar do seu interesse sexual manifestado pela única figura feminina (além da mãe) com quem ele manteve contato nos últimos tempos – Kim, esposa de Will, que passa a morar com eles – revelaram, para mim, o percurso do "menino se tornando homem". Dentro de sua claustrofobia inquietante, reforçada igualmente por momentos de puro silêncio e por uma trilha sonora desconfortável que funciona como um arranhar de unhas na lousa, criando uma expectativa pessimista, o filme nada pelas questões da moralidade diante da tragédia. Em um mundo onde as regras sociais deixaram de existir como conhecemos, decisões precisam ser tomadas. E, no meio do caos mental e da completa paranoia, Ao cair da noite pode muito bem estar assumindo uma metáfora sobre a maneira como nos relacionamos uns com os outros e com aquilo que nos cerca quando estamos com medo.





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