07 setembro 2017

IT - A Coisa: a adaptação que a obra-prima de Stephen King merecia

postado por Manu Negri


Depois de cerca de 3 anos aguardando esse filme desde o anúncio de sua produção, ENFIM CHEGOU A HORA, MIGOS! Afinal, meu livro favorito de todos os tempos merecia uma adaptação decente, ao contrário da minissérie lançada em 1990 que consagrou o Pennywise de Tim Curry.

Mas, como comumente ocorre entre obras e suas adaptações, os livros tendem a ser mais densos. Aqui, essa regra não foge à exceção. A história de A Coisa se prolonga por cerca de 1.000 páginas e, ainda que esse filme seja longo e conte apenas a primeira parte do livro, é difícil repassar em tela todas as suas nuances. Além da nossa imaginação ser muito poderosa, a atmosfera que Stephen King constrói é maravilhosamente única: ele transforma uma cidade em um personagem, a ponto de praticamente traçarmos um mapa de todos os seus cantos, e apresenta com riqueza o universo de cada membro do Clube dos Perdedores.

Portanto, não: essa nova adaptação, do diretor Andy Muschietti (de Mama), não é cinco estrelas. Acho que, no fundo, eu nem estava esperando isso. Mas, felizmente, ela conseguiu captar o ponto mais importante do livro pra mim, que está muito acima do terror e do próprio palhaço: a relação entre as crianças protagonistas, que resistem aos problemas familiares, bullying, opressão e desajustes através da amizade que constroem.

A história, inclusive, é bastante em cima desse aspecto: sete crianças se unem durante as férias de verão e encontram força uns nos outros para combater seus próprios demônios e uma entidade ancestral que acorda de uma profunda hibernação a cada 27 anos. Ela se manifesta de acordo com os seus maiores medos, mas principalmente na forma de um palhaço autointitulado Pennywise.

Enquanto o período que abrange a infância, no livro, se passa nos anos 1950, no filme foi adaptado para o fim dos anos 1980; provavelmente para gerar mais identificação com o público e para a segunda parte, com os personagens adultos, se passar nos dias atuais. A direção de arte e os figurinistas de IT, nesse contexto, fizeram um ótimo trabalho de reconstrução da época. A trilha sonora e menções bem-humoradas ao New kids on the block complementam a atmosfera, com referências a Conta comigo (outro filme baseado em livro do King) e a Os goonies. Já as tomadas aéreas e amplas de Derry ajudam a nos inserir na cidade "amaldiçoada", e provavelmente vão causar mais tum-tum no coração dos fãs da obra.

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Andy Muschietti sabe usar seus recursos para assustar e criar um clima de tensão. É uma lâmpada que se acende ao fundo do quadro; um movimento de câmera que esconde o perigo, para depois revelá-lo e deixar o personagem vulnerável junto com a gente; uma leve ascensão da música. Eu, que sou expert em prever sustos de cenas como essas, quase enfartei em determinado momento (aliás, palmas para o responsável pelo projetor do cinema da minha sessão, que em uma cena específica acendeu a luz da sala e fez o público inteiro pular da poltrona. Sério, foi genial).

No entanto, eu esperava que IT tivesse menos sustos. Por mais que seja categorizada no gênero terror, eu considero a história um drama justamente pelo que disse ali em cima: os desaparecimentos de crianças, Pennywise e os monstros nos quais ele se torna são um pano de fundo para o desenvolvimento do Clube dos Perdedores. Mas é entendível que a produção queira fisgar o público do cinema de terror que ainda adora esse tipo de artifício. Ao mesmo tempo, ao longo da projeção, isso se torna um defeito.

As primeiras aparições de Pennywise são de encher os olhos. Ficamos encolhidos em nossos lugares. Ele preenche a tela, assusta sem fazer muita coisa e fascina. Mas, quanto mais o vilão é mostrado, menos menos abominável ele parece ser; o que não tem nada a ver com a atuação de Bill Skarsgård. Por mais que eu entenda o que o papel de Tim Curry representou, esse novo Pennywise é mais fiel ao livro, desde o seu figurino e maquiagem até a expressão corporal. Que, aliás, representa um ótimo trabalho de Bill, trazendo trejeitos de um palhaço inofensivo e contorcionista de circo para uma versão desconcertantemente amedrontadora. É uma pena que o filme em si não tenha apostado mais na subjetividade do horror.

Em contraponto a esses momentos apreensivos, temos alívios cômicos excelentes e bem pontuados, a meu ver, com o elenco mirim. A harmonia entre os sete integrantes dos Perdedores me agradou bastante, mas quem rouba a cena é o Finn Wolfhard (de Stranger things) como Richie. As Famosas Vozes do personagem, assim como a expressão recorrente no livro "Beep-beep, Richie", não se fizeram tão presentes, mas suas as piadinhas características conseguiram suprir. Outro que me surpreendeu foi Jack Dylan Grazer, dando a Eddie um aspecto cômico de que eu não me lembrava lendo IT. Sophia Lillis, como Beverly, mostrou ser a mais madura em termos de carga dramática, coisa que sua personagem pedia bastante. Gostei!

Algumas mudanças estabelecidas por Muschietti não me incomodaram e serviram para amarrar com eficiência o roteiro, em particular a sequência de acontecimentos finais dentro do esgoto, que estavam me preocupando ligeiramente antes de assistir ao filme. Tem coisas que, definitivamente, soam melhor em um livro.

Porém, existem pontos que, acredito, só quem leu IT vai absorver melhor, como o fato de a entidade "demoníaca" conseguir agir sobre os cidadãos de Derry para que o mal, de alguma maneira, sempre se faça presente no lugar. Tenho a impressão de que isso foi mostrado de forma sutil. No entanto, seja quem está indo conferir o filme como fã da obra, seja quem está indo porque gosta de filmes de terror, não vai se decepcionar.

Vida longa aos Perdedores. <3





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