25 janeiro 2016

Joyland: um parque de diversões "bem" assombrado

postado por Manu Negri


Eu fico surpresa quando encontro um livro fino do Stephen King. Acredite, não é muito comum. Joyland tem menos de 300 páginas e, enquanto o levava pra casa na bolsa, imaginava que talvez o livro pudesse guardar uma história despretensiosa e mais rasa do que outras do autor com que me acostumei.

Digamos que estive certa e errada. Despretensiosa, sim. Rasa, jamais. Como fui tolinha! Stephen King nunca escreve nada raso, crianças.

Esse cara tem um talento invejável pra criar vínculos viscerais entre leitor e personagens, não importa como eles sejam. Devin Jones, por exemplo – nosso protagonista em questão –, é um virjão de 21 anos nos anos 70 que acaba de levar um pé na bunda da namorada e está triste e abatido, sem vontade de cantar uma bela canção. Trabalhando como faz-tudo no parque de diversões Joyland, ele resolve dar algum rumo na sua vida e acaba conhecendo gente que vai mudá-la para sempre; inclusive uma moça que foi assassinada há alguns anos no trem fantasma e, desde então, vive no brinquedo ("vive", risos) à procura de uma maneira de ser libertada.

Lendo essa sinopse, você pode pensar que Joyland tem tudo pra ser cafona. Pode admitir. Eu mesma pensaria. Mas, felizmente, não é. Eu também diria que Joyland não é uma história de terror; ela tem, sim, elementos clássicos do gênero, como um fantasma assombrando alguma coisa, mas é principalmente uma história sobre amadurecimento. Esse é, inclusive, tema recorrente nas obras de King, como A Coisa e O corpo (que virou o conhecido filme da Sessão da Tarde "Conta comigo") e, provavelmente, o motivo que me faz ser tão sua fã.

Vou ser franca: a tensão e o ritmo intenso neste livro só começam a acontecer depois da metade. Mas, porém, no entanto e todavia, como eu já disse, King é talentoso e experiente: ele consegue transformar a rotina de um moleque de aprender a manejar uma roda gigante, limpar trilhos e vestir fantasia de mascote em algo interessante e gostoso de ler. Investe na paciência e na construção lenta da trama pra criarmos uma conexão com Devin e repararmos como, ao fim, o personagem está diferente de quando a história começou.

Stephen King tem o hábito de interligar seus livros colocando personagens cruzando com outros de outras histórias, e fiquei feliz de encontrar o tubo de cera Turtle presente em Joyland (quem leu A Coisa vai saber do que estou falando). Também há elementos familiares demais que relaciono com Doutor Sono: abordagem da juventude, um cara fazendo um bico durante as férias de verão, criança com dons especiais – ou até sobrenaturais, talvez. Mas aqui tudo soa mais realista e natural, o que é importante para nos sintamos tocados pelas coisas que acontecem.

Sem elevar as expectativas demais, arrume um tempo livre no fim de semana, vá até uma praça e comece a ler Joyland. Você vai descobrir como é bacana se deixar viajar por uma história simples, mas não simplista, que sabe te envolver até a última página.



"O fim do meu primeiro amor não chega nem perto da morte de um velho amigo e do luto por outra, mas seguiu o mesmo padrão. Exatamente o mesmo. E, se pareceu o fim do mundo pra mim – causando primeiro aqueles pensamentos suicidas (por mais bobos e desanimados que tenham sido) e depois de uma mudança sísmica no curso antes inquestionável da minha vida –, você precisa entender que eu não tinha uma escala pela qual medir. Isso se chama ser jovem."

"– Tudo bem. Se cuide.
Ele fez uma careta, sem abrir os olhos.
– Que piada. Como é que posso me cuidar? Você tem alguma ideia? Eu não sei. Não tenho parentes, não tenho amigos, não tenho poupança, não tenho plano de saúde. O que vou fazer agora?
– Vai dar tudo certo – afirmei, sem jeito.
– Claro, nos filmes sempre dá. Vá, se mande."

Os "capítulos" são divididos por corações 


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