21 outubro 2014

A sombra de Mariana

postado por Manu Negri



Mariana sempre foi tímida. Educada, mas de poucas palavras. Evitava falar tanto quanto evitava olhar nos olhos das pessoas; por isso, mantinha a vista quase sempre fixada nos próprios pés enquanto andava. Seu medo constante era de que o resto do mundo estivesse sempre reparando no quanto era desengonçada e sem graça. Torcendo o nariz, balançando a cabeça em desaprovação.

Mas tudo o que Mariana queria era não ser notada. Não ser percebida.

O cabelo enorme, escorregando para o rosto, mantinha-a escondida de qualquer potencial curioso. As roupas, discretas e dois números maiores que seu corpo, ajudavam a camuflá-la na multidão. Entrar muda e sair calada de um lugar eram uma arte que Mariana dominava, sempre afoita por voltar para seu apartamento quarto e sala, onde não poderia ser alvo de ninguém.

Ser notada. Ser percebida.

A mera concepção dessas ideias era tão apavorante que fazia Mariana se fechar em uma concha. Querer ser invisível. Mas não invisível para os poucos amigos com quem se sentia à vontade, que já passavam a ligar pra outros números da agenda que não o dela. Que antes gostavam de jogar conversa fora, e agora jogavam fora qualquer conversa.

Não ser notada e não ser percebida era solidão.

Mas, pra fugir um pouco da companhia da sua sombra, Mariana tomou um gole de coragem. Se matriculou no balé ao lado do escritório do seu trabalho de meio horário. O medo de errar foi aos poucos substituído pela confiança de achar que, entre tentativas e treinos, fazia algo decente pela primeira vez na vida. Quando começou a praticar mais sozinha, Mariana encontrou seus próprios olhos refletidos no espelho.

Eles a notavam. Eles a percebiam.

Mas não como desengonçada, e muito menos sem graça, como sua cabeça imaginava. Eles registraram a inflexão do corpo, antes rígido de vergonha; os movimentos cada vez mais precisos, a leveza do cair dos braços e das pontas dos pés bailando, os giros e o suor do seu esforço. Ele, o reflexo de seus olhos, testemunha ocular do seu progresso, encontrou os olhos de verdade – que sustentaram o contato por mais tempo do que em qualquer outro momento de sua existência – e Mariana viu mais do que umidade tentando escapar: viu orgulho.

Mas não havia mais ninguém notando-a. Percebendo-a.
Não havia ninguém pra aplaudir.

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Você também pode conferir esta crônica na edição 31 da revista Minas em Cena.


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