25 setembro 2016

"Menina má": aquela criança angelical pode ser uma psicopata

postado por Manu Monjardim


 Será a maldade uma semente que brota dentro de nós?

The bad seed ("A semente do mal") foi uma obra que levantou polêmica na época de seu lançamento, no ano de 1954. Escrito por William March, um pobre sujeito que não pôde aproveitar o sucesso sequente devido a um ataque cardíaco, o livro foi republicado no Brasil recentemente como "Menina má" pela Darskide Books que descobri ser uma editora SÓ de livros de terror e suspense. Ou seja, o paraíso pra mim. <3

"Menina má" me ganhou pela capa dura maravilhosa (aliás, os livros da Darkside costumam ter capas bem maneiras), pelo marcador de páginas à moda antiga e pela sinopse, claro. O livro, que inspirou outras obras como Anjo Malvado, provocou o maior bafafá porque tratou de um tema que até então não era explorado: a maldade inata vs. a inocência das crianças.

Rhoda é, à primeira vista, uma garotinha de 8 anos linda, doce, obediente, organizada, madura para a idade e extremamente educada. Um anjinho de Deus, como dizem por aí. Ou o capiroto, como as páginas seguintes vão mostrar.   
   

Por trás do rostinho de uma boneca, como a arte do livro sugere, existe uma verdade muito mais crua e assustadora, que ninguém desconfia. Até então.

Para analisar "Menina má", é preciso levar em consideração duas coisas: a narrativa, claro, e o contexto social da década de 1950. Havia se passado pouco tempo desde a Segunda Guerra Mundial, e o mundo tentava se recuperar de suas cicatrizes. Os primeiros casos de serial killers começaram a bombar na mídia, e a percepção da maldade humana criaram um novo tipo de monstro: ele não habitava um desconhecido na rua, escondido sob sombras, mas estava naquele vizinho de porta, no dono da mercearia e até em algum membro da família. Ou seja, alguém próximo de nós.

Eis o nascimento de um novo marco na literatura de horror: o personagem assustador das histórias passa a ser o próprio ser humano.

Inicialmente, "Menina má" me deixou bem presa à história. Morando sozinha com sua mãe Christine, já que o pai estava há meses em viagem de trabalho, Rhoda acaba se envolvendo em um estranho acidente na escola, culminando na morte de um colega de classe de quem ela tinha inveja. É quando o leitor, junto com Christine, começa a desconfiar da índole de Rhoda, trazendo questionamentos sobre o que ela seria capaz de fazer pra conseguir o que quer.

A garota é uma completa psicopata, incapaz de sentir empatia pelos outros, tampouco por sua mãe. Foi aí que comecei a me incomodar. Achei o livro bastante expositivo, deixando claro que Rhoda simulava comportamentos e valores que ela sabia que eram aplaudidos pela sociedade. Creio que seria muito mais interessante plantar uma pulga atrás da nossa orelha; nos fazer indagar se a menina estava verdadeiramente sentindo coisa x ou coisa y ou estava apenas interpretando; se ela é uma monstrinha ou não. MÃS, claro, eu não posso analisar algo que eu queria que tivesse acontecido. O objetivo do livro é outro: deixar explícito desde o começo que Rhoda é má, mas questionar se essa maldade veio do berço ou do meio que nos molda.

Eu particularmente não fico muito empolgada quando tentam justificar de onde vem a semente do mal de um personagem. Vide Hannibal e aquele filme horrendo em que contam a história da sua juventude e o estopim pro canibalismo. Aconteceu a mesma coisa em "Menina má": fiquei um pouco desencantada.

Apesar de ser uma leitura fácil, considerando a época em que a obra foi escrita, achei a narrativa um tanto quanto rasa, e o final deixou a desejar. Não me refiro à decisão que Christine toma, uma vez que ela já tinha certeza de que a filha era uma assassina em potencial (inclusive achei a solução mais coerente que o autor encontrou). Mas fica clara a intenção dele na última página de criar uma mega ironia/humor negro, que não funcionou pra mim. Não há aquela sensação de terror que deveria ter ficado.

Porém, ficam os meus elogios à construção de uma personagem em particular: Monica, a vizinha e proprietária do prédio onde Christine e Rhoda moram. Uma senhora amável, divorciada e independente que, durante o livro, dá altas alfinetadas feministas, afirmando que mulheres podem ser muito mais do que objetos de decoração dos homens. Lembremos que "Menina má" foi lançado em 1954.
“Sempre houve algo estranho com Rhoda, mas eles ignoraram suas esquisitices, esperando que, com o tempo, ela fosse se tornando mais parecida com as outras crianças. Mas isso não aconteceu.”

 Tara maldita


Além de uma peça na Broadway, "Menina má" ganhou uma adaptação cinematográfica apenas dois anos após sua publicação. No Brasil, chegou com o título de "Tara maldita".

[Tara, do dicionário: "defeito físico ou moral, transmitido ou agravado pela hereditariedade". Ou seja, toma aí um pequeno spoiler, senhor culto.]

O filme concorreu a 4 Oscars: Melhor Fotografia, Melhor Atriz (a garotinha e a atriz quem interpretou a mãe) e Melhor Atriz Coadjuvante (uma senhora que apareceu em duas cenas). Bom, vê-se que o conceito de boas atuações na época era outro, porque foram bastante teatrais pro meu gosto. Acredito que por conta, também, do fato de que o filme foi baseado tanto no livro quanto nessa peça da Broadway. Dá pra perceber vários aspectos ao longo do longa (rs) que remetem a uma representação teatral: os cenários, os enquadramentos distantes e amplos, a movimentação dos atores em cena, muita dose de dramaticidade, etc.

Mas, no fim das contas, acho até que gostei mais do filme do que do livro. Ele é extremamente fiel à história, bem adaptado, e ainda traz um final um pouco diferente, e até mais chocante, dependendo do ponto de vista. Achei até engraçado que, nos créditos, há uma mensagem pedindo para os espectadores NÃO CONTAREM PARA OS OUTROS O CLÍMAX DA HISTÓRIA, pra não estragar a experiência de ninguém, hahaha.


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16 setembro 2016

10 filmes que saíram do cinema pra você assistir sem sair de casa

postado por Manu Monjardim


Vamos combinar que cinema não anda uma coisa tão acessível quanto antigamente, principalmente pra quem não tem o benefício de pagar meia entrada. Quando o problema não é dinheiro, é falta de tempo. Eu simplesmente AMO ver filmes no cinema; aquela sensação gostosa de curtir uma experiência com outras pessoas num mesmo lugar, a telona ocupando todo o espaço à minha frente, a pipoca amanteigada (custa os olhos da minha cara e da sua, mas eu evito pensar nisso). Mas a gente faz o que pode, e quanto pode.

Por isso, é inevitável perder algumas estreias de filmes bacanas e ter que esperar eras pra poder encontrar na Netflix ou achar um link pra baixar com uma legenda decente (se você prefere filmes dublados, retire-se do recinto). A menos que você faça parte do maravilhoso mundo de pessoas que usam o NET NOW. A NET você conhece, né – que oferece TV por assinatura, telefone e internet. No NOW, um dos serviços dela, é possível alugar filmes por preços muuuito camaradas (bem mais baratos que um ingresso comum, lógico), que ficam disponíveis pra você por até 48h. Inclusive filmes recém-saídos do cinema!

Ou seja, nem é preciso esperar tanto tempo pra conferir aquele longa superfamoso no conforto do lar. Pensando nisso, separei 10 filmes lançamentos disponíveis na plataforma pra você alugar correndo assim que terminar de ler o post (rs):


1. MÃE SÓ HÁ UMA


O sucesso estrondoso de Que horas ela volta? ajudou a diretora Anna Muylaert a divulgar seu mais novo filme, Mãe só há uma, que estreou no último Festival de Berlim. A história real contada segue a vida extraordinária de Pierre, um adolescente de 16 anos que, em meio a transformações que envolvem sua sexualidade, descobre que sua mãe o roubou na maternidade. A partir daí, ele é obrigado a deixar a família que o criou, indo viver com os pais biológicos, que nunca tinha visto antes. Treta bem tretosa.


09 setembro 2016

"O homem nas trevas" me deixou exausta

postado por Manu Monjardim


Dos criadores de A morte do demônio, "O homem nas trevas" (título original: "Don't breathe") é o novo thriller que anda chamando a galera pro cinema desde que a Sony Pictures divulgou uma cena bem daora em seu Facebook (atraindo criaturas capazes de associar a porcaria de uma SINOPSE com... o quê? Estímulo à violência? Crítica aos direitos humanos? Ao Brasil? HAHAHAHAH PELO AMOR DE DEUS)


Sim, assaltar é errado. Assaltar é um crime. Mas assaltar casas é o que o trio de personagens faz rotineiramente, um deles pra tentar mudar a dura realidade da sua vida, sim, e isso é apenas um fato da sinopse. Eu tô ficando (ainda mais) preocupada com a sanidade das pessoas na internet.

</revolta>

"Money", Rocky e Alex são amigos e experts em assaltar casas de ricaços para roubar pertences valiosos (nunca dinheiro, ou a pena deles mudaria caso fossem pegos).  Num belo dia, Money, o babacão mano das quebrada, fica sabendo que tem um idoso veterano de guerra morando sozinho em uma casa de uma rua isolada, e dono de uma boooa grana, que recebeu de indenização depois que sua filha foi morta em um atropelamento. Decididos a arriscarem levar dinheiro pela primeira vez em suas "carreiras", eles partem em missão sem imaginar que o senhor ex-soldado, apesar de aparentemente inofensivo por ser cego, é um filho da puta ninja capaz de saber sua localização só por te ouvir respirar.

Aí você pensa: "porra, pelo material promocional estão tentando fazer o cara parecer um vilão, mas é fácil: vou torcer pro velhinho estripar esses três. Quem mandou invadirem a casa?"

Ah, meu amigo. Você não sabe os plot twists que o aguardam.

O filme aproveita seu primeiro ato para objetivamente nos apresentar aos adolescentes/jovens adultos e mostrar quais são suas motivações. Money é, talvez, o líder; um sujeito impetuoso e rude por quem não temos muita empatia, ao contrário de Alex e Rocky. O primeiro, mais tímido e introspectivo, mostra claros sinais de que há um senso moral habitando seu coraçãozinho quando nega participar do assalto ao "homem nas trevas" (argh). Porém, muda de ideia porque está apaixonado por Rocky (ah, sim, Rocky é uma mulher) e sabe que o dinheiro que conseguirão vai ajudá-la a dar uma vida boa pra filha e fugir da mãe alcoólatra.

Todo filme pede para que o espectador torça pelo bem de algum dos seus personagens (se não for TODO filme, me desculpa, devo ter esquecido alguma coisa do minicurso de crítica cinematográfica rsrs). Até esse ponto, O homem nas trevas acredita que te fisgou com a construção desses dois personagens e espera que você queira o seu bem, mas enquanto a presença do senhor cego é estabelecida a partir do segundo ato e você ainda não entende se ele é exatamente uma vítima da situação, é impossível não vibrar com a sua sagacidade e boas doses de violência quando entra em confronto com os jovens.         

Esse filme me deixou mentalmente exausta. Primeiramente Fora Temer, o velho é uma figura selvagem e altamente intimidadora; bastava aparecer em cena para eu me encolher na poltrona do cinema. Roí duas unhas. É sério. Segundamente, a direção é ágil e ótima, assim com o roteiro. Há um trecho em que o trio consegue entrar na casa e a câmera simula um plano sequência pelos cômodos, passando por portas, subindo andares e entrando debaixo de camas que eu achei demais; estabeleceu-se a tensão necessária para dar espaço no palco para o velho começar a brilhar. A partir daí, é aflição e angústia cena após cena, em um labirinto de situações muito bem construído que conduz os ~meliantes~ a tentativas de fugas desesperadoras da casa, que acabam abrindo portas (literalmente?) para uns segredinhos obscuros do dito-cujo.

Há momentos em que a gente prende a respiração junto com eles. Momentos em que um barulhinho de pipoca a 10 fileiras de distância pode causar um trincar de dentes. E isso é brilhante, pelo que o longa propõe. Só há uma fala que eu não curti, em que o velho diz algo como "Não há nada que um homem não faça quando descobre que Deus não existe", mas isso é assunto pra outro texto.  

Meu receio mesmo era que o final de O homem nas trevas estragasse toda a minha experiência, mas, felizmente, ponto pra Grifinória. Há inúmeras surpresas agradáveis ao longo do filme, e o fim do terceiro ato é tão eletrizante, cheio de reviravoltas, que até o último segundo de projeção eu não tinha certeza se a história estava definitivamente concluída. Saí da sessão espantada por ela ter durado menos de 1h30, porque eu sentia como se tivesse sido atropelada de frente e de ré durante o dobro do tempo por um caminhão pipa: sudorese na suvaca, perna bamba, taquicardia, dor nas junta. Acho melhor fazerem um lanchinho no shopping antes de assistirem, porque depois tudo o que vocês irão querer são uma soneca e uma massagem pra aliviar os nós nas costas.





04 setembro 2016

Aquarius é isso tudo o que estão dizendo

postado por Manu Monjardim


Aquarius é o novo filme do cineasta Kleber Mendonça, responsável pelo aclamado O som ao redor, e o único representante do Brasil no Festival de Cannes deste ano. Na Europa, com sua exibição no evento, Aquarius surpreendeu pela sua incrível qualidade enquanto obra cinematográfica; no Brasil, ficou conhecido depois da equipe e elenco fazerem uma manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff e o golpe parlamentar, no tapete vermelho. O velho blablablá de gente inflamada, comum nesse furacão de acontecimentos políticos – "mamam nas tetas do governo corrupto para defendê-lo", "se beneficiaram da Lei Rouanet", etc. –, levou a uma grande promessa de boicote ao filme assim que ele estreasse no Brasil. Inclusive, parece que aconteceu uma treta envolvendo a comissão responsável por indicar a obra nacional que concorrerá a uma vaga para disputar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: entre os membros deste ano, havia um crítico cujo trabalho aparentemente não é muito respeitado pelos colegas de profissão, que atacou por meses Aquarius e seus realizadores sem ter assistido ao filme. Eita.

Cartazes em Cannes: "Há um golpe ocorrendo no Brasil"
De acordo com o quadro de cotações do Screen Daily, Aquarius foi o quinto longa mais bem avaliado, entre os 21 que competiam pela Palma de Ouro (o prêmio mais prestigiado). Além disso, a imprensa e muitos críticos apostavam em Sônia Braga como vencedora na categoria Melhor Atriz (acabou perdendo para a filipina Jaclyn Jose, de Ma'Rosa). E isso já diz alguma coisa, considerando que Cannes é um dos festivais de cinema mais importantes do mundo. Se não for o mais importante.

Todo esse conjunto de coisas foi o que me levou à comparecer à primeira sessão da estreia do filme no Espaço Itaú de Cinema da Augusta, mesmo com o ingresso custando absurdos R$ 33 (bicha, por favor, que que isso?!). Deixando posicionamentos políticos do diretor ou elenco de lado, o que interessa é avaliar o que está sendo contado no filme, e como está sendo contado.

Aquarius é dividido em três capítulos. O primeiro, chamado "O cabelo de Clara", se inicia na década de 1980, onde conhecemos a protagonista Clara, ainda bastante jovem e flertando com um visú Elis Regina: cabeça máquina 2. O cenário é a festa de 70 anos de tia Lúcia, dentro do apartamento do edifício que dá nome ao filme. Enquanto os filhos de Clara leem cartas cheias de carinho e orgulho pela trajetória de vida da tia-avó, a aniversariante se distrai observando uma cômoda num dos cantos da sala e pegando o espectador de surpresa: ela está relembrando momentos intensos de sexo sobre o móvel, décadas antes. Gente, vovós também transam ou já transaram, viu?

Em seguida, o marido de Clara agradece a presença de todos e alfineta aqueles que não estiveram próximos durante o tratamento de câncer de mama da esposa. A cena posterior já nos mergulha nos dias atuais, porém no mesmo apartamento de frente para a Praia de Boa Viagem, em Recife, com uma Clara sessentona, vivida por Sônia Braga, de cabelos enoooormes. Pra mim, é aí que o filme mostra a que veio: nos contar um a história sobre ressignificação, memórias e como elas podem ser tão particulares a ponto de representarem um mundo inteiro pra gente.


Clara é uma mulher à frente do seu tempo e, a meu ver, seus cabelos longos são um símbolo de sua força adquirida ao longo dos anos e que a levou a ser o que é: corajosa, resistente, afetuosa (e um pouquinho marrenta). Agora, viúva, e com os filhos independentes, ela mora completamente sozinha em um prédio de apartamentos vazios. Mas Clara parece não se importar. Vai à praia pelas manhãs, faz atividades físicas com a comunidade, bate papo com seu amigo bombeiro e salva-vidas e tem uma rotina de afeto e fraternidade com a empregada doméstica há quase 20 anos. Mas, tão importante quanto isso tudo, Clara tem a companhia de seus móveis antigos e de sua coleção de discos de vinil: um resquício da época em que foi jornalista e crítica musical. Uma enorme fonte de memórias e de histórias vividas dentro e fora daquele apartamento e que constroem sua identidade.

Porém, sua rotina pacífica é interferida quando uma construtora a pressiona para vender seu cafofo com o objetivo de construir um edifício muito mais moderno no local. Mas quem disse que histórias podem ser compradas? Sem entender isso, o arquiteto responsável pela negociação, interpretado por Humberto Carrão – cujos olhos demasiadamente separados um do outro me causam mal-estar –, intensifica suas investidas passivo-agressivas (rs) e revela que o jogo sempre pode ficar mais sujo quando é preciso conseguir o que queremos.

No fim das contas, Aquarius é muito mais sobre a protagonista do que sobre o próprio edifício. Ou seria Clara uma analogia ao prédio; um lugar que não quer se livrar de suas marcas? Aquarius é Clara? Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

(reflitam)

Falemos de Sônia Braga, que está absolutamente deslumbrante. E não digo só em relação à sua beleza, mas ao trabalho excepcional que nos apresenta aqui, repleto de naturalidade e verdade. Ela carrega Aquarius, mas isso não significa de forma alguma que o filme só fica bom por causa dela; é como um desses mágicos encontros entre personagem bem construído e interpretado e uma direção segura. Há uma cena em particular de confronto entre Clara e sua filha, em que Sônia está dando uma dura nela e um fucking segundo depois engole seco, perde a voz, treme a boquinha e chora com tanta credibilidade que eu acabei chorando junto, maravilhada. É uma entrega de sutilezas, detalhes e olhares que merece muito ser aclamada.  

Por fim, aproveitem a viagem e se deliciem também com a trilha sonora. Eu, que não sou tão chegada assim em MPB (não me julguem), repeti em minha mente as músicas e as cenas que as acompanharam, entendendo como elas foram elementos importantes para contar essa história, relacionando-se intensamente com Clara e com o espaço em que ela vive.

"Quando você não gosta, é velho. Quando gosta, é vintage".


 



16 agosto 2016

Kaoma & eu

postado por Manu Monjardim


É verdade que, quando adolescente, eu tinha poucas ambições na vida. Não pensava muito na minha futura profissão, não tinha nenhuma paixão à vista e não sonhava em dançar valsa em uma festa de debutante pomposa. Meu único desejo, que consumia horas do meu dia em pesquisas, leituras e zapeadas no Animal Planet, era ter um golden retriever. E você, Kaoma, por acaso era um. Há especialistas em pedigree que talvez pudessem ter discordado da pureza do lance, mas eu nunca liguei se sua altura não tinha os centímetros exatos ou se sua pisada não correspondia à da família dos retrievers.

Naquela época, as pessoas não eram tão julgadas quanto a querer ter um cachorro de raça ao invés de adotar um vira-lata. Acho que bicho é bicho e, independente de misturas genéticas, merece ter um lar com donos carinhosos. E o seu esteve repleto de amor antes mesmo de você chegar, porque era com você que eu sonhava.

O momento em que olhei pra sua carinha de olhos caídos ainda é muito vívido na minha memória. Talvez não tenha sido a melhor das apresentações, já que a viagem de avião do Rio até Vitória provavelmente te traumatizou e fez você vomitar o carro inteiro durante o trajeto até em casa. Mas tivemos muito tempo para nos conhecer depois. Com muitos outros episódios escatológicos, sim, envolvendo mais enjoos no banco de trás e você comendo cocô antes de vir me lamber. Mas nada que amigos não possam esquecer.

Ao longo desses 13 anos, você presenciou alguns dos períodos mais marcantes da minha vida. Conheceu meus melhores amigos, meu primeiro amor. Me viu entrar na faculdade, levar pra casa meu diploma, conseguir o meu primeiro emprego e, depois, conseguir o segundo em outra cidade. Aprendeu a sentar, esperar, a nadar (ou já nasceu nadando?), a andar sem coleira na rua e até a parar na faixa de pedestres. Mas também foi uma grande professora na arte de ensinar a paciência, o carinho incondicional, o perdão, a aceitação e como viver mais plenamente. Carpe diem. Aproveitem o dia, meninos. Façam de suas vidas uma coisa extraordinária.

E você aproveitou. Você teve uma vida boa. Isso estava claro na última vez em que a vi, com os pelos do focinho brancos como nunca e o andar desajeitado e lento. Velhinha. Mas, ainda assim, me recebeu de viagem com o mesmo abanar de rabo frenético que tinha quando filhote e aquele barulho engraçado que diz "estou sorrindo. Estou feliz em te ver". Obrigada, Kaoma. Parece até que você sabia que era essa a última boa lembrança que eu deveria guardar de você.

Não tenho certeza se acredito em paraísos, mas acho que, se você não virou uma estrelinha, está vivendo agora em cima das nuvens, mostrando os dentes pra outros catiorríneos, tomando o sol da manhã, se empanturrando de guloseimas (sem ser cocô, por favor) e tendo alguns daqueles sonhos, cheios de tremeliques, com a família que te amou aqui embaixo.

Escrevo, sim, uma carta para alguém que não sabe ler.

Muito menos falar.

Mas que entendeu como poucos uma linguagem que dispensa intérpretes.