23 junho 2018

HEREDITÁRIO: 0% jumpscares, 99% perturbador, 1% vagabundo

postado por Manu Negri


Comentários sem spoilers


Eu quero começar este texto mais uma vez enaltecendo o estúdio A24, responsável por distribuir os excelentes Moonlight, Lady Bird, A ghost story, Ex-Machina, Projeto Flórida e O lagosta, entre outros, também conhecido por dar liberdade criativa aos autores de seus projetos. Ultimamente, este nome tem ficado forte por lançar alguns filmes de terror que fogem das produções de sustos baratos, como Ao cair da noite e A bruxa. Hereditário é mais um, graças aos deuses, que chegou para engrossar o grupo.

Esses "novos filmes de terror", como eu os encaixava até pouco tempo, na verdade não estão inventando a roda, e sim trazendo-a de volta para o cinema. É um retorno ao horror clássico muito feito há várias décadas, como O exorcista e O bebê de Rosemary, afirmando que a sétima arte vive momentos cíclicos. Não à toa, Hereditário vem sendo descrito, desde sua aparição no Festival de Sundance, como o "novo O Exorcista"; não em termos de trama, mas em termos de narrativa, com a faca, o queijo e a goiabada na mão pra se tornar um novo clássico do gênero neste século.

A história do filme não é originalzona. Mas a forma como ela é contada é a grande sacada. Acho que Hereditário é um bom exemplo de como a experiência do espectador ao longo da projeção é tão ou mais importante que a conclusão dela. Desde o início existe o prenúncio de uma tragédia, como uma semente plantada na nossa viagem sensorial que cresce e floresce a cada cena e detalhes nem um pouco apresentados ao acaso, nos provocando a montar um quebra-cabeças.


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24 maio 2018

Sofrendo de psicose severa em HELLBLADE: SENUA'S SACRIFICE

postado por Manu Negri


Descrito por sua produtora britânica Ninja Theory como um jogo "AAA independente", Hellblade foi lançado em agosto de 2017 para PC, PS4 e Xbox One e já ganhou 5 prêmios no BAFTA Games 2018. Sem qualquer prévia da história ou tutorial, a não ser dos comandos dos botões, o game começa com uma guerreira celta em uma canoa em direção a um lugar qualquer, cercada pelos créditos da produção, que navegam tão lentamente quanto ela, já mostrando para o público uma palhinha da magnífica direção de arte. Descobrimos, então, que a guerreira em questão se chama Senua e está em viagem para Hel, um dos nove mundos da mitologia nórdica, a fim de salvar a alma de seu amado e falecido Dillion. De resto, sua história, suas dores e seus sonhos são revelados pouco a pouco, exceto por um detalhe importante e que é o chamariz desse jogo: Senua sofre de psicose severa, e o jogador vai sentir isso junto a cada passo que ela dá, em uma imersão fantástica que une temática celta/nórdica e psicologia.

Levando isso em consideração, se eu tivesse que definir Hellblade em uma única palavra, seria docaralho sombrio. Antes mesmo do menu surgir, e toda vez que você iniciar o game, um aviso desse aparece:



22 maio 2018

BONECO DE NEVE, de Jo Nesbø: livro + filme

postado por Manu Negri

Sim, eu mesma fiz essa belíssima montagem, obrigada
Pelo que andei lendo, Boneco de Neve é um dos vários livros do norueguês Jo Nesbø cujo protagonista é Harry Hole, um investigador policial fodão, porém fodido no amor, no tato social e na sobriedade. Considerado pelo The Guardian seu livro mais ambicioso, Boneco de Neve também é conhecido como a obra mais arrepiante do escritor por outros veículos e leitores. Na história, Harry vira o cabeça de uma investigação que está atrás de um serial killer denominado Boneco de Neve, que mata mulheres quando cai a primeira neve em Oslo, deixando um presentinho montado no local do crime, que é isso mesmo que você está pensando.


17 maio 2018

2 séries policiais bacanudas da Netflix pra conhecer

postado por Manu Negri


Eu amo, amo a temática policial e, depois de já ter recomendado três séries do tipo aqui, hoje vou dar a dica de duas séries que estão na Netflix. E já vou avisando: não são a piiiiiica das galáxias não, mas entretêm bem e me fizeram maratonar em dois dias.

A primeira delas na verdade é uma minissérie e se chama La mante, do original em francês, ou, aqui, A Louva-a-Deus. Em apenas 6 episódios, a história se passa décadas após a captura de uma serial killer conhecida como A louva-a-Deus, que oferece ajuda para solucionar uma sequência de assassinatos inspirados em seu modus operandi. Porém, com uma condição: trabalhar junto do filho policial responsável pelo caso, que ela "abandonou" quando foi presa.

Tirando o fato de que 90% do elenco é desprovido de carisma, principalmente o filho da senhora trevosa, a minissérie costura bem as pistas – mesmo que muitas delas sejam falsianes – em direção ao imitador dos crimes, de modo a sempre ter bons ganchos que levam o espectador a nunca querer fazer uma pausa entre os episódios. De acordo com Serial killer - Louco ou Cruel?, livro da Ilana Casoy que estou lendo no momento junto de um romance policial, assassinas em série são bem mais incomuns do que assassinos, além de terem motivações diferentes para matar, e por isso achei interessante a abordagem de uma criminosa do tipo nesta história. Ao longo da trama, descobrimos as razões que fizeram a Louva-a-Deus ser quem é, extremamente ligadas à misoginia; o impacto disso no filho e em como ele precisa lidar com isso ao ver-se obrigado a conviver com alguém que despreza; e como a questão da maternidade segue a narrativa da minissérie, culminando num desfecho que, pra mim, foi bem satisfatório e não requer nenhuma possível continuação.


11 maio 2018

Sobre WHAT REMAINS OF EDITH FINCH, vencedor do "Oscar dos videogames"

postado por Manu Negri


Há um ano era distribuído pela Annapurna Interactive o game de suspense e aventura da Giant Sparrow que, em 2018, ganharia o BAFTA Games Awards de "Melhor jogo" – contrariando as apostas em Horizon Zero Dawn, sobre o qual já falei aqui. Disponível para PC, PS4 e Xbox One, What remains of Edith Finch conta a triste história das gerações da família Finch, que acreditava estar sob alguma maldição, já que os seus membros costumam morrer de forma trágica e repentina.

No jogo, estamos na pele de Edith, última da linhagem dos Finch, que retorna à antiga casa de seus antepassados anos depois de uma tragédia. Finalmente livre para explorar o lugar, ela tem a oportunidade de conhecer todos os cantos por onde viveram, já que praticamente cada cômodo da casa pertenceu a um Finch e sobreviveu até o momento como um grande memorial e um ode às suas (muitas vezes curtas) existências. Com um caderninho em mãos, nós, como Edith, passamos a reconstruir a árvore genealógica da família ao descobrirmos passagens secretas e quartos escondidos à medida que somos convidados a experimentar o último dia de vida de cada pessoa