09 maio 2016

"Antes de dormir", de S. J. Watson – livro e filme

postado por Manu Monjardim


Tess Gerritsen, autora de thrillers famosos como O cirurgião, Jardim de Ossos e Desaparecidas (que resultaram numa série baseada na dupla de detetives: Rizzoli & Isles) escreveu, como consta na capa, que Antes de dormir é simplesmente o melhor romance de estreia que ela já leu. Olha, Tess, Antes de dormir é muito bom mesmo, mas você tá precisando ler mais romances de estreia pra melhorar essa concepção.

Lembra daquele filme bonitinho do Adam Sandler (é, às vezes ele acerta) com a Drew Barrymore, chamado Como se fosse a primeira vez? Então. Antes de dormir é mais ou menos aquela história, trocando o gênero comédia romântica por suspense. O livro é narrado por Christine Lucas, uma mulher de meia idade que, após sofrer um trauma grave, adquire um tipo incomum de amnésia: ela consegue reter informações durante um dia inteiro, mas, ao dormir e acordar nas manhãs seguintes, continua encarando seu marido – Ben – como um estranho. Christine então descobre, através de seu médico, que mantém um diário para não perder o que acontece em sua vida. Mas, para sua surpresa, ao passar a primeira página, a primeira frase que lê é "não confie em Ben".

S. J. Watson tem muitos méritos por agarrar a dificuldade de mostrar um personagem acordando todos os dias sem saber onde e com quem está e conseguir manter uma atmosfera de suspense contínua, sem ficar cansativo. Usar o diário como parte da narrativa do livro e como forma da Christine passar os dias se descobrindo aos poucos ajuda a dar fluidez, ainda que algumas situações e pensamentos da personagem fiquem um pouco repetitivos - o que acho coerente com o que está acontecendo.

As interações de Antes de dormir se dão basicamente entre Christine e Ben e Christine e o dr. Nash e mesmo assim você vai querer devorar página por página para saber a verdade sobre o passado dela, se o que Ben conta é verdade ou não, quem pode estar enganando Christine e se, vai que, na verdade é ela que está desbirocando e paranoica com tudo. Confesso que a resposta para um dos maiores mistérios do livro não é tão imprevisível, mas a forma como ela se revelou me pegou tão de surpresa que fiquei sem fôlego. Amarrando o caminho até esse ponto com mais artimanhas e Antes de dormir teria ganhado mais alguma estrelinha da minha parte.


A adaptação cinematográfica

Em 2014 saiu um filme baseado no livro, com Nicole Kidman e Colin Firth, que eu assisti em seguida (também se chama Antes de dormir). Entendo que realizaram algumas mudanças que fizessem a história funcionar melhor na tela, como trocar o diário por uma câmera fotográfica que filma, mas a adaptação ficou bem confusa. Tudo acontece muito rápido e há muitos furos que ficam melhor tapados nas páginas. A impressão final é que tentaram fazer de tudo pra que a gente, público, acreditasse que todas as coisas faziam perfeito sentido.

Ponto positivo: Nicole Kidman está ótima. E ela consegue sorrir sem que o botox atrapalhe suas feições.


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21 abril 2016

Suspense, facas e drogas em "Objetos cortantes", de Gillian Flynn

postado por Manu Monjardim


Ah, Gillian Flynn. Apenas dois livros de sua autoria que eu li e já caí de amores. Pena que só existem três. Aguardo ansiosamente pelo próximo lançamento.

Ao contrário de Josh Malerman, que estreou no mundo literário com o horrendo Caixa de Pássaros, Flynn conseguiu sambar e fazer um espacate em cima da cara da sociedade com sua primeira obra, Objetos cortantes. A história é narrada em primeira pessoa por Camille Preaker, uma jornalista meia boca de Chicago que é obrigada a voltar à sua cidade natal, a pequena Wind Gap, para construir uma matéria a respeito do assassinato de uma garotinha e do desaparecimento misterioso de outra. Sem recursos e recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar sua tendência à automutilação, Camille se hospeda na casa da mãe neurótica – quem não vê há anos –, do padrasto e da meia-irmã de 13 anos que mal conhece.

Assim como em Lugares escuros e Garota exemplar (que não li, mas assisti ao filme, então dá pra ter uma ideia), Flynn choca o público-leitor ao trazer um drama com elementos perturbadores, muita tensão e um nível de compreensão impressionante das camadas mais imperfeitas do ser humano. Desde as primeiras páginas a gente sabe que está nas mãos de uma rainha. Ela constrói com paciência os passos que Camille dá para tentar encontrar respostas sobre o crime, enquanto revive memórias doloridas do passado e tenta se relacionar não só com a família que deixou em Wind Gap, mas com seus próprios demônios, estabelecendo uma ligação forte de empatia com ela.

O foco de Objetos cortantes é em Camille, sua mãe e a cidade em si, o que não torna o livro menos “thriller”. Até porque, cada vez que a personagem sai às ruas e descobre coisas novas sobre as pessoas que estão à sua volta, o cheiro de podre levanta e mistérios se agravam. Aliás, a resposta para um dos grandes mistérios do livro não pareceu surpreendente pra mim, mas de forma alguma tira o brilho de todo o resto. O que me incomodou (e sempre tem algo que incomoda né, mores) foi outra coisa.

A partir mais ou menos da página 200 (a edição que comprei tem 251), achei que Objetos cortantes perdeu um pouco da força. Ainda que Flynn nos conduza com habilidade até o clímax, a conclusão dos acontecimentos se deu de forma muito rápida, em contraste com tudo o que foi apresentado até então, além de deixar pontas soltas para questões que pediam encerramentos mais sólidos. Sabe quando um filme baseado em fatos reais termina e, antes dos créditos, aparecem aqueles textos contando o que houve com os personagens depois? Então, a impressão que ficou do final foi mais ou menos essa.

Mesmo não sendo o melhor de Gillian Flynn, Objetos cortantes é um ótimo suspense que merece ser lido e, depois, assistido: a HBO anunciou que vai produzir uma minissérie de 8 episódios baseada na história, com a maravilhosa da Amy Adams no papel de Camille. Tomara que não demore a sair.

“Seus dedos puxaram a toalha. Eu me aferrei a ela, dura como um pano de prato sobre meus seios, e balancei a cabeça.
– Por que isso? – sussurrou ele no meu ouvido.
– A imperdoável luz da manhã – sussurrei de volta. – Hora de abandonar a ilusão.
– Que ilusão?
– De que tudo vai ficar bem – disse, e beijei sua face.”



15 abril 2016

Filmes da semana #7: documentários imperdíveis

postado por Manu Monjardim



O último post da série Filmes da Semana foi em, socorro, novembro do ano passado. Não que eu tenha parado de assistir a filmes, mas quis reunir o máximo de nomes possíveis do Oscar pra comentar num texto só sobre ele. Pena que minhas observações a respeito dos indicados às principais categorias acabaram ocupando duas linhas cada um, pro post não ficar gigantesco. Fuén. :-/

Mas, pra voltar com tudo e inaugurar a primeira publicação da série deste ano, trago três recomendações de documentários incríveis pra vocês tentarem assistir neste fim de semana.


THE HUNTING GROUND


The hunting ground aborda um assunto pesado, delicado e perturbador: os inúmeros casos de estupros nos campi universitários americanos. É praticamente uma epidemia. Através de dados chocantes e depoimentos emocionantes de vítimas, o documentário mostra como as administrações das instituições se preocupam mais em encobrir os fatos do que resolvê-los e proteger os estupradores ao invés de dar suporte aos sobreviventes, movidas por puro machismo e, claro, interesses financeiros. Enquanto algumas meninas chegam ao triste fim do suicídio, outras tentam seguir em frente lutando por justiça e educação em um meio que insiste em dizer que a culpa é sempre, sempre da mulher.

Felizmente, The hunting ground ganhou bastante notoriedade ao ser indicado ao Oscar por Melhor Canção Original – Till it happens to you, interpretada pela Lady Gaga em uma peformance de arrepiar que levou várias vítimas reais de abuso ao palco da cerimônia. Espero muito que o buzz ajude a transformar, mesmo que aos poucos, a realidade das estudantes desses campi.


Boa notícia: tem na Netflix pra assistir, YAY!



DEAR ZACHARY: A LETTER TO A SON ABOUT HIS FATHER


Andrew Bagby era um desses caras queridos por todo mundo: amigos, familiares, colegas de trabalho. Do tipo bonito, carismático e brincalhão que todo mundo quer ter por perto. No entanto, sua vida foi encurtada precocemente depois que sua namorada na época resolveu lhe enfiar 5 balas à queima-roupa, revoltando qualquer alma provida de sensibilidade. O problema é que ela estava grávida dele e logo daria à luz um garotinho. Tentando salvar o máximo de lembranças sobre Andrew, seu melhor amigo, o cineasta Kurt Kuenne decide montar um documentário para um dia mostrar a Zachary quem foi seu pai.

Bom, eu apenas não estava preparada para o desenrolar e reviravoltas dessa história absurdamente triste e chocante que te deixa, ao mesmo tempo, sem esperança na humanidade e com fé nas pessoas fortes e boas. Chorei a porra do filme in-tei-ro. De soluçar e comer ranho. Prepare uma caixa de lenços e uma bacia de brigadeiro pra quando terminar, porque vai ser preciso recolocar serotonina no corpo.

Onde assistir: Espaço Torrent de Cinema (risos).



EDIFÍCIO MASTER


Documentário brasileiro! O diretor Eduardo Coutinho e sua equipe filmaram, durante sete dias, o cotidiano dos moradores do Edifício Master, situado em Copacabana. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar: ao todo, são 276 apartamentos conjugados, onde moram cerca de 500 pessoas. Praticamente "O cortiço" versão cinematográfica.

Em entrevistas com 37 pessoas, Edifício Master extrai relatos íntimos, emocionantes, engraçados, tristes e alegres que formam um verdadeiro retrato da diversidade. Uma ideia simples, mas que, montada do jeito que foi, nos relembra como cada pessoa com quem esbarramos na rua guarda uma história carregada de significados. A vida é rica! Mas a sua realidade "é sempre o funeral das ilusões".

Tem inteirim no Youtube pra assistir. :3



10 abril 2016

O fantástico livro Novembro de 63 e a minissérie 11.22.63

postado por Manu Monjardim


Novembro de 63 é o meu segundo livro favorito do Stephen King e um dos favoritos da vida. Tijolão, do jeitinho que eu gosto. É por isso que, com muita alegria no coração, me preparei durante dois meses pra assistir à minissérie baseada na obra que estreou em fevereiro, produzida por J. J. Abrams (Lost, Cloverfield e Star Wars – O despertar da força) e com James Franco no papel do protagonista.

Jake Epping é um modesto de professor inglês de Lisbon, Maine (sempre, sempre o Maine), que conhece uma fenda do tempo localizada dentro da despensa do restaurante de seu grande amigo, Al. Uma vez que você passa por essa fenda, você é lançado diretamente para o ano de 1958 e pode ficar à vontade por lá, porque cada vez que você retorna só se passam 2 minutos no tempo presente. Al, cansado de transitar entre os dois universos e bastante doente, incumbe Jake de uma importante missão: impedir o assassinato do presidente Kennedy em novembro de 1963.

Ahhh, mais uma história de viagem no tempo, você deve estar pensando. É. Mas não uma viagem qualquer: primeiro, que é escrita com toda a maestria do King; segundo, o contexto, regras das viagens e efeitos borboleta são extremamente coesos e, terceiro, é tudo embasado em muita, muita pesquisa a respeito de acontecimentos reais que só contribuem para que o drama fique bem amarrado, verossímil e envolvente.

Tá bom. Mas, Manu, de 1958 a 1963 são 5 anos. Qual o tipo de linguiça que o autor chuchou aí? Nenhuma, amigos. King tem, mais uma vez, a minha admiração pelo que ele conseguiu construir aqui. Com base nas muitas anotações de Al, Jake inicia sua trajetória de se adaptar ao novo (ou melhor, velho) mundo, viver sob nova identidade e vigiar bem de perto Lee Harvey Oswald, o verdadeiro acusado de ser o assassino do presidente. O ex-marine americano que derrotou a então União Soviética voltou para os EUA com sua esposa, a russa Marina, para poucos anos depois deixar sua marca na História.

À esquerda, Lee Harvery Oswald interpretado por Daniel Webber. À direita, o Lee real.
Paralelamente às suas investigações e espionagens, Jake se instala como professor em uma escola da cidade de Jodie, faz apostas pra ganhar mais dinheiro (afinal, ele sabe o que acontece no futuro), faz uns amigos e se apaixona pela bibliotecária Sadie Dunhill. A partir desse momento, Sadie passa a exercer um papel muito importante na trama como o ponto de ligação emocional de Jake com o passado, mas, principalmente, como a responsável por fazê-lo se encontrar como ser humano, independente do tempo e espaço. Essa era uma das coisas que me preocupava em relação à minissérie, se conseguiriam fazer isso funcionar legal e, apesar de muita coisa ter ficado de fora, acho que deu certo. Afinal, it's all about Jake & Sadie – e o vínculo entre eles se sobrepõe a qualquer viagem entre 1960 e os anos 2000.

A reconstrução de época na adaptação, aliás, é soberba. Deve ter dado um puta trabalho, mas a direção de arte e figurinos estão de parabéns. E, ainda que o contraste seja muito evidente, é interessante como a fotografia trabalha com cores muito vivas quando Jake está no passado e com cores lavadas e sombrias quando volta para o presente, sugerindo não apenas a energia dos acontecimentos, mas o lugar onde Jake se sente em casa.

Porém, como nem tudo são flores, ainda estou em dúvida sobre o que achar de um ponto específico: a introdução de um personagem que não existe no livro. Quer dizer, existe, mas só ocupa algumas poucas páginas e logo sai de cena: Bill.

  
No livro, Bill surge apenas pra servir de ferramenta de impedimento para Jake realizar um determinado feito (porque fica evidente, mais no livro do que na série, que o passado é praticamente um personagem à parte e faz de tudo pra não ser alterado por ninguém). Na adaptação, Bill também cumpre esse papel, mas depois se junta à Jake na empreitada contra Lee Harvey.

É compreensível que os produtores tenham decidido fazer isso como solução para externar os pensamentos de Jake, metodologias e objetivos, já que na obra original ele faz tudo sozinho e, pra isso, obviamente basta contar apenas com o texto. O problema é que incluir um personagem que não "será necessário" pro desfecho da história requer um desfecho cuidadoso para ele mesmo, e não acho nem um pouco que foi o caso de Bill. Abriu um parênteses sem sentido na relação entre ele e Jake e ainda arranhou a imagem deste último pra nada.    

Agora, vamos à seção Stephen King Adora Cruzar Passagens De Seus Livros Com Outros Livros. Em Novembro de 63, ele coloca Jake esbarrando em dois personagens de A Coisa, meu livro favorito, enquanto visita a cidade de Derry, o que me levou a batimentos cardíacos acima dos 100. 11.22.63 não adaptou essa parte, mas em compensação inseriu um easter egg de O iluminado:


Esse REDRUM escrito na parede aparece por poucos segundos enquanto Sadie e Jake sobem as escadas de um prédio bem importante e é uma clara referência a essa outra obra de Stephen King, que aparece tanto no livro quanto no filme do Kubrick. Não vou falar o segredo dessa palavra misteriosa pra não estragar a experiência de quem ainda pretende assistir a O iluminado, mas a dica é: tem tudo a ver com esse momento de 11.22.63. ;)

Por fim, é bom frisar: King às vezes consegue acertar em cheio o tom dos finais de seus livros, e acho que o de Novembro de 63 foi um grande fator pra eu ter gostado tanto do livro; amarrou perfeitamente as últimas pontas e não poderia ter sido mais coerente. Esperei ansiosamente pelo último episódio da minissérie pra ver como tinham decidido contar e é com imenso prazer que afirmo que adaptaram do jeitinho que Novembro de 63 merece. Jake acerta as contas consigo mesmo, com seus erros, com o que se propôs a fazer e, por fim, consegue deixar o passado em seu lugar: pra trás.

De qualquer forma, leiam o livro. Mesmo uma minissérie de 8 episódios não foi o suficiente pra narrar toda a riqueza dessa história e a sorte de coisas que os personagens enfrentam ou que não puderam ser completamente adaptadas pra TV. Novembro de 63 é excelente. E 11.22.63 chega perto.


"Não pedimos este salão ou esta música.
Fomos convidados a entrar.
Portanto, porque a escuridão nos rodeia, voltamos nossos olhos para a luz.
Suportamos os momentos de dificuldade para agradecermos os de abundância.
Foi nos dada a dor para nos surpreendermos com a alegria.
Foi nos dada a vida para não aceitarmos a morte.
Não pedimos este salão ou esta música.
Mas já que estamos aqui,
vamos dançar."

"Tá tudo bem. Você é um bom homem, Mr. Epping. Você é um bom homem."


09 abril 2016

"Caixa de pássaros" é uma cilada, Bino!

postado por Manu Monjardim


Caixa de pássaros figurou como um dos destaques do Skoob por um bom tempo, mas eu só o incluí na minha meta do ano depois que um amigo (que conhece meu apreço por histórias de suspense) me indicou. Foi amor à primeira lida da sinopse: achei a premissa superintrigante, um livro que tinha tudo pra ser uma obra inesquecível do gênero, escrito por um carinha estreante.

Eu estava certa. É mesmo inesquecível.
De tão merda.

Acompanhe comigo: Malorie tenta sobreviver num mundo pós-apocalíptico sozinha, com seus dois filhos pequenos. Quatro anos antes, o planeta inteiro sofreu um surto bizarro de suicídios, precedidos de comportamentos ultraviolentos das pessoas. Aos poucos, chega-se à conclusão de que essas vítimas teriam visto alguma coisa misteriosa que despertou a reação desmedida. Com isso em mente os assombrando, os sobreviventes arrumavam maneiras de seguir a vida a partir de uma única regra: é proibido olhar pro lado de fora de casa.

Fala sério, sinopse do caramba, não? Li Caixa de pássaros em menos de seis dias, um recorde pessoal que não quebro há MUITO tempo, por dois motivos: 1) é ridiculamente fácil de ler e 2) fui movida por uma curiosidade insana de descobrir o mistério. O problema é quando é fácil de ler porque a narrativa é pobre e você não fica nem um pouco satisfeita com o desfecho da história.

Josh Marleman não faz nenhuma questão de ser detalhista. Sua objetividade quase fria não me incomodou a princípio  já que eu estava curtindo o ritmo acelerado da leitura , mas depois de um tempo começou a deixar a desejar. Bastante. Com exceção (um pouco) da protagonista, achei os personagens pouco desenvolvidos, amarrações preguiçosas de situações que deveriam ser muito mais tensas e, os diálogos, ruins. Tudo contribui para que a abordagem da história soe superficial. Simplesmente não consegui me conectar com as pessoas e com o que elas estão vivendo.

Talvez tenha faltado sutileza ao autor. Menos momentos expositivos. Eu não quero ler "Malorie ficou mais forte", eu quero ler um parágrafo em que eu entenda o porquê de ela ter ficado mais forte, sem precisar falar isso. Ou, no mundo ideal, dezenas de páginas anteriores que apresentem Malorie em situações que, após um tempo, a deixassem mais forte. Dá pra compreender?

O triste é que Malerman parece acreditar que conseguiu criar um atmosfera melancólica com as ligações emocionais entre leitor e personagens, e uma prova disso é a puta forçação de barra do final do livro. Os filhos de Malorie, que mencionei na sinopse, são chamados de Garoto e Menina pela mãe sem o menor motivo. Eles simplesmente não têm nomes. Parece mais uma coisa de "ai nossãn, vou deixar eles aqui sem nomes pra reforçar esse ar apocalíptico". Aí, no fim, ela finalmente batiza os dois de nomes que significaram algo pra ela ao longo da história, mas que, ao menos pra mim, não surtiu nenhum efeito. Era pra teoricamente ter sido emocionante, mas só consegui olhar pro teto e soltar uma bufada de vergonha alheia.

Malerman, melhore. Coma mais arroz e feijão. Pense mais, construa melhor o universo do seu livro. Eu, aliás, estou até agora tentando entender como a população dele deduziu que as vítimas olhavam pra alguma coisa antes de ter o surto psicótico. Essa explicação nunca chega. Assim é muito conveniente. E por que diabos os sobreviventes precisam tanto de papel? É a nova roda da era moderna? "Voltamos da expedição com muita coisa boa: mantimentos, ferramentas, papel"(???)

Tá serto
Meu desabafo está aí, mas você pode muito bem gostar de Caixa de pássaros. A nota no Skoob tá lá pra todo mundo ver: 4.2, de 5. Mas euzinha continuo pensando que é uma ideia excelente desperdiçada por alguém ainda muito imaturo como escritor.