19 junho 2016

"A garota no trem" e o thriller psicológico feijão & arroz

postado por Manu Monjardim


Tenho uma suspeita de que, depois de obras como "A menina que roubava livros", "A menina que não sabia ler" e "A menina que brincava com fogo", novos autores começaram a achar que um dos passos da fórmula para o sucesso é enfiar um menina ou garota no título de seu livro. Talvez seja o caso de Paula Hawkins e sua garota no trem. Talvez.

De qualquer forma, o sucesso veio. A leitura fácil atraiu um grande público. O romance vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Mas livros fáceis de se ler não significam, necessariamente, que sejam bons. Muito menos estar entre os mais vendidos. 50 tons de cinza taí pra todo mundo entender. Não que A garota no trem seja ruim, só não é o tipo de obra que te marca – é bom para passar o tempo, igual filme que você zapeia na TV a cabo, assiste, se diverte, e em seguida o esquece.

"Você não sabe quem ela é, mas ela conhece você", diz a capa do livro a respeito da nossa garota (que está mais pra uma mulher trintona). Não é bem assim, não. Rachel pega o mesmo trem de Ashbury para Londres todos os dias. Em determinado trecho, ele para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel sempre observa a casa de número 15 e seus dois habitantes, um casal apaixonado que ela chama de Jess e Jason. Num belo dia, nossa garota-mulher observa, segundo a sinopse do livro, uma cena chocante (que de chocante tem porrãn nenhuma); e aí, pouco tempo depois, descobre que Jess – na verdade, Megan – está desaparecida.

"Se você gostou de Garota exemplar, vai devorar esse thriller psicológico", diz outra frase na capa do livro, e tudo o que posso responder é BITCH, PLEASE. Não li Garota exemplar, mas vi o filme, o que me dá noção suficiente pra discordar. Ok, ok, mal passei da sinopse e já enterrei sua vontade de ler A garota no trem, né? Não era minha intenção. Como eu disse, ele tem suas qualidades. É um livro, sim, devorável. O suspense em torno do desaparecimento da Megan é bem mantido, assim como os mistérios que abrangem outros personagens que podem ou não estar envolvidos na história. Minha crítica é que isso tudo não tem nada de sensacional, mas o marketing de A garota no trem vende como se fosse a última bolacha (digo, biscoito) do pacote.

Vamos ignorar o fato de que uma mulher irrelevante desaparecida vira notícia nacional. Creio que nossa garota, Rachel, é uma protagonista que divide opiniões: uns querem dar uma bofetada em sua cara, outros sentem pena e apenas esperam que as coisas melhorem pra ela. Rachel deixa de se ver como mera espectadora da vida do casal que observava e passa a fazer, de certa forma, parte importante da investigação do caso. O livro é contado sob três pontos de vida – o dela, o da própria Megan e o da esposa do ex-marido da Rachel (ah, sim, eles são os outros personagens não-carismáticos) –, fornecendo perspectivas diferentes dos dias que antecederam o desaparecimento e a dinâmica da rotina de quem foi afetado por ele. Imagino que a intenção de Hawkins tenha sido mostrar que ninguém é o que parece ser, mas olha, colega, faltou força. A revelação por trás do(a) culpado(a) pelo que aconteceu com Megan me soou um show de horrores cafona à parte, com direito à tipica cena de vilão que faz todo mundo de refém e revela como executou seu plano maligno. Uma revelação nada surpreendente, aliás, que envolve reviravoltas bobas, incapazes de terem me deixado tensa em qualquer momento.

"Um thriller psicológico que vai mudar para sempre a maneira como você observa a vida das pessoas ao seu redor". Nah. Quem sabe numa próxima. Ou, quem sabe, a adaptação para o cinema se dê melhor nessa missão – a Universal comprou os direitos (se deu bem, heim, Paula Hawkins) e já produziu um longa com Emily Blunt no papel principal (jamais adivinharia), que deve estrear no Brasil ainda neste ano.





Related Posts Widget For Blogger with ThumbnailsBlogger Templates
14 junho 2016

"Como eu era antes de você": bonitinho, mas ordinário

postado por Manu Monjardim


Se você estiver procurando a publicação sobre o LIVRO, e não o filme, clique aqui.

Adaptado do best-seller de Jojo Moyes, Como eu era antes de você traz Emilia Clarke no papel da protagonista Louisa "Lou" Clark, uma jovem de 26 anos sem maiores perspectivas de vida que arranja emprego como cuidadora do tetraplégico Will Traynor (Sam Claflin), cuja condição foi responsável por deixá-lo, com o passar do tempo, amargo e infeliz.

Sobre a fidelidade em relação à obra original, tá todo mundo de parabéns. Roteirizado pela própria Moyes, o filme é praticamente um resumo do livro, com muitas falas preservadas, cenas marcantes e a linha divertida, apesar de parte da história se revelar um drama delicado sobre um tema espinhoso (falarei mais pra frente, com spoilers). Emilia Clarke está adorável e engraçada como Lou, sem qualquer sombra de Daenerys Targaryen, personagem que a tornou tão famosa em Game of Thrones. Mesmo quando Lou se via sem saída em algumas situações, foi impossível imaginá-la mandando um DRACARYS. Sam Claflin também faz um bom trabalho como Will, sarcástico e distante na medida certa, vulnerável quando tem que ser, trazendo à tona o sofrimento, resignação e tristeza do personagem. Quanto à química entre os dois, não tenho do que reclamar.

Nunca pensei que sobrancelhas pudessem ser tão expressivas.

Mas ordinário?

(Alerta de spoilers)

Sim, o filme é fiel ao livro, é gracinha e me fez derramar umas lágrimas bem das grossas (preciso dizer que jogaram sujo tacando música do Ed Sheeran no meio da cena). No entanto, não é uma obra memorável; ao contrário, é bem formulaica justamente por seguir o passo a passo de um romance que conquista multidões (principalmente as femininas, vamos combinar).

A gente deseja que o casal fique junto. O timing cômico foi melhor do que eu esperava (me peguei gargalhando em uma cena em particular envolvendo corrida de cavalos). Mas senti falta de dois pontos: primeiramente, achei que não ficou tão evidente quanto no livro a forma como Will foi importante pra Lou decidir aproveitar melhor sua vida, expandir os horizontes e se tornar uma pessoa mais segura de si. Principalmente porque é disso que trata o título "Como eu era antes de você" – eu, Lou, antes de conhecer Will. Segundo, que o tal tema espinhoso – a eutanásia – não é abordado com profundidade.  Você pode argumentar "ok, não era a vibe do filme, e nem mesmo o livro navegou por essas águas". E eu direi que você tem razão. Mas poderiam ser melhor explorados o dilema de Will, a questão direito de viver x obrigação de viver, o porquê de ele estar tão decidido a partir, mesmo com todo dinheiro e acesso a uma qualidade de vida que muitos na mesma situação não teriam e, ainda assim, escolhem ficar.

De qualquer forma, não cabe a ninguém julgar as escolhas do personagem. Nem é o foco, acho.
No fim das contas, o que importa perceber de Como eu era antes de você é que amar alguém é deixá-la livre. E é isso, definitivamente, o que mais gostei.





09 maio 2016

"Antes de dormir", de S. J. Watson – livro e filme

postado por Manu Monjardim


Tess Gerritsen, autora de thrillers famosos como O cirurgião, Jardim de Ossos e Desaparecidas (que resultaram numa série baseada na dupla de detetives: Rizzoli & Isles) escreveu, como consta na capa, que Antes de dormir é simplesmente o melhor romance de estreia que ela já leu. Olha, Tess, Antes de dormir é muito bom mesmo, mas você tá precisando ler mais romances de estreia pra melhorar essa concepção.

Lembra daquele filme bonitinho do Adam Sandler (é, às vezes ele acerta) com a Drew Barrymore, chamado Como se fosse a primeira vez? Então. Antes de dormir é mais ou menos aquela história, trocando o gênero comédia romântica por suspense. O livro é narrado por Christine Lucas, uma mulher de meia idade que, após sofrer um trauma grave, adquire um tipo incomum de amnésia: ela consegue reter informações durante um dia inteiro, mas, ao dormir e acordar nas manhãs seguintes, continua encarando seu marido – Ben – como um estranho. Christine então descobre, através de seu médico, que mantém um diário para não perder o que acontece em sua vida. Mas, para sua surpresa, ao passar a primeira página, a primeira frase que lê é "não confie em Ben".

S. J. Watson tem muitos méritos por agarrar a dificuldade de mostrar um personagem acordando todos os dias sem saber onde e com quem está e conseguir manter uma atmosfera de suspense contínua, sem ficar cansativo. Usar o diário como parte da narrativa do livro e como forma da Christine passar os dias se descobrindo aos poucos ajuda a dar fluidez, ainda que algumas situações e pensamentos da personagem fiquem um pouco repetitivos - o que acho coerente com o que está acontecendo.

As interações de Antes de dormir se dão basicamente entre Christine e Ben e Christine e o dr. Nash e mesmo assim você vai querer devorar página por página para saber a verdade sobre o passado dela, se o que Ben conta é verdade ou não, quem pode estar enganando Christine e se, vai que, na verdade é ela que está desbirocando e paranoica com tudo. Confesso que a resposta para um dos maiores mistérios do livro não é tão imprevisível, mas a forma como ela se revelou me pegou tão de surpresa que fiquei sem fôlego. Amarrando o caminho até esse ponto com mais artimanhas e Antes de dormir teria ganhado mais alguma estrelinha da minha parte.


A adaptação cinematográfica

Em 2014 saiu um filme baseado no livro, com Nicole Kidman e Colin Firth, que eu assisti em seguida (também se chama Antes de dormir). Entendo que realizaram algumas mudanças que fizessem a história funcionar melhor na tela, como trocar o diário por uma câmera fotográfica que filma, mas a adaptação ficou bem confusa. Tudo acontece muito rápido e há muitos furos que ficam melhor tapados nas páginas. A impressão final é que tentaram fazer de tudo pra que a gente, público, acreditasse que todas as coisas faziam perfeito sentido.

Ponto positivo: Nicole Kidman está ótima. E ela consegue sorrir sem que o botox atrapalhe suas feições.


21 abril 2016

Suspense, facas e drogas em "Objetos cortantes", de Gillian Flynn

postado por Manu Monjardim


Ah, Gillian Flynn. Apenas dois livros de sua autoria que eu li e já caí de amores. Pena que só existem três. Aguardo ansiosamente pelo próximo lançamento.

Ao contrário de Josh Malerman, que estreou no mundo literário com o horrendo Caixa de Pássaros, Flynn conseguiu sambar e fazer um espacate em cima da cara da sociedade com sua primeira obra, Objetos cortantes. A história é narrada em primeira pessoa por Camille Preaker, uma jornalista meia boca de Chicago que é obrigada a voltar à sua cidade natal, a pequena Wind Gap, para construir uma matéria a respeito do assassinato de uma garotinha e do desaparecimento misterioso de outra. Sem recursos e recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar sua tendência à automutilação, Camille se hospeda na casa da mãe neurótica – quem não vê há anos –, do padrasto e da meia-irmã de 13 anos que mal conhece.

Assim como em Lugares escuros e Garota exemplar (que não li, mas assisti ao filme, então dá pra ter uma ideia), Flynn choca o público-leitor ao trazer um drama com elementos perturbadores, muita tensão e um nível de compreensão impressionante das camadas mais imperfeitas do ser humano. Desde as primeiras páginas a gente sabe que está nas mãos de uma rainha. Ela constrói com paciência os passos que Camille dá para tentar encontrar respostas sobre o crime, enquanto revive memórias doloridas do passado e tenta se relacionar não só com a família que deixou em Wind Gap, mas com seus próprios demônios, estabelecendo uma ligação forte de empatia com ela.

O foco de Objetos cortantes é em Camille, sua mãe e a cidade em si, o que não torna o livro menos “thriller”. Até porque, cada vez que a personagem sai às ruas e descobre coisas novas sobre as pessoas que estão à sua volta, o cheiro de podre levanta e mistérios se agravam. Aliás, a resposta para um dos grandes mistérios do livro não pareceu surpreendente pra mim, mas de forma alguma tira o brilho de todo o resto. O que me incomodou (e sempre tem algo que incomoda né, mores) foi outra coisa.

A partir mais ou menos da página 200 (a edição que comprei tem 251), achei que Objetos cortantes perdeu um pouco da força. Ainda que Flynn nos conduza com habilidade até o clímax, a conclusão dos acontecimentos se deu de forma muito rápida, em contraste com tudo o que foi apresentado até então, além de deixar pontas soltas para questões que pediam encerramentos mais sólidos. Sabe quando um filme baseado em fatos reais termina e, antes dos créditos, aparecem aqueles textos contando o que houve com os personagens depois? Então, a impressão que ficou do final foi mais ou menos essa.

Mesmo não sendo o melhor de Gillian Flynn, Objetos cortantes é um ótimo suspense que merece ser lido e, depois, assistido: a HBO anunciou que vai produzir uma minissérie de 8 episódios baseada na história, com a maravilhosa da Amy Adams no papel de Camille. Tomara que não demore a sair.

“Seus dedos puxaram a toalha. Eu me aferrei a ela, dura como um pano de prato sobre meus seios, e balancei a cabeça.
– Por que isso? – sussurrou ele no meu ouvido.
– A imperdoável luz da manhã – sussurrei de volta. – Hora de abandonar a ilusão.
– Que ilusão?
– De que tudo vai ficar bem – disse, e beijei sua face.”



15 abril 2016

Filmes da semana #7: documentários imperdíveis

postado por Manu Monjardim



O último post da série Filmes da Semana foi em, socorro, novembro do ano passado. Não que eu tenha parado de assistir a filmes, mas quis reunir o máximo de nomes possíveis do Oscar pra comentar num texto só sobre ele. Pena que minhas observações a respeito dos indicados às principais categorias acabaram ocupando duas linhas cada um, pro post não ficar gigantesco. Fuén. :-/

Mas, pra voltar com tudo e inaugurar a primeira publicação da série deste ano, trago três recomendações de documentários incríveis pra vocês tentarem assistir neste fim de semana.


THE HUNTING GROUND


The hunting ground aborda um assunto pesado, delicado e perturbador: os inúmeros casos de estupros nos campi universitários americanos. É praticamente uma epidemia. Através de dados chocantes e depoimentos emocionantes de vítimas, o documentário mostra como as administrações das instituições se preocupam mais em encobrir os fatos do que resolvê-los e proteger os estupradores ao invés de dar suporte aos sobreviventes, movidas por puro machismo e, claro, interesses financeiros. Enquanto algumas meninas chegam ao triste fim do suicídio, outras tentam seguir em frente lutando por justiça e educação em um meio que insiste em dizer que a culpa é sempre, sempre da mulher.

Felizmente, The hunting ground ganhou bastante notoriedade ao ser indicado ao Oscar por Melhor Canção Original – Till it happens to you, interpretada pela Lady Gaga em uma peformance de arrepiar que levou várias vítimas reais de abuso ao palco da cerimônia. Espero muito que o buzz ajude a transformar, mesmo que aos poucos, a realidade das estudantes desses campi.


Boa notícia: tem na Netflix pra assistir, YAY!



DEAR ZACHARY: A LETTER TO A SON ABOUT HIS FATHER


Andrew Bagby era um desses caras queridos por todo mundo: amigos, familiares, colegas de trabalho. Do tipo bonito, carismático e brincalhão que todo mundo quer ter por perto. No entanto, sua vida foi encurtada precocemente depois que sua namorada na época resolveu lhe enfiar 5 balas à queima-roupa, revoltando qualquer alma provida de sensibilidade. O problema é que ela estava grávida dele e logo daria à luz um garotinho. Tentando salvar o máximo de lembranças sobre Andrew, seu melhor amigo, o cineasta Kurt Kuenne decide montar um documentário para um dia mostrar a Zachary quem foi seu pai.

Bom, eu apenas não estava preparada para o desenrolar e reviravoltas dessa história absurdamente triste e chocante que te deixa, ao mesmo tempo, sem esperança na humanidade e com fé nas pessoas fortes e boas. Chorei a porra do filme in-tei-ro. De soluçar e comer ranho. Prepare uma caixa de lenços e uma bacia de brigadeiro pra quando terminar, porque vai ser preciso recolocar serotonina no corpo.

Onde assistir: Espaço Torrent de Cinema (risos).



EDIFÍCIO MASTER


Documentário brasileiro! O diretor Eduardo Coutinho e sua equipe filmaram, durante sete dias, o cotidiano dos moradores do Edifício Master, situado em Copacabana. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar: ao todo, são 276 apartamentos conjugados, onde moram cerca de 500 pessoas. Praticamente "O cortiço" versão cinematográfica.

Em entrevistas com 37 pessoas, Edifício Master extrai relatos íntimos, emocionantes, engraçados, tristes e alegres que formam um verdadeiro retrato da diversidade. Uma ideia simples, mas que, montada do jeito que foi, nos relembra como cada pessoa com quem esbarramos na rua guarda uma história carregada de significados. A vida é rica! Mas a sua realidade "é sempre o funeral das ilusões".

Tem inteirim no Youtube pra assistir. :3