07 novembro 2016

Escuridão total sem estrelas - Stephen King

postado por Manu Negri


"As histórias neste livro são chocantes. Você pode ter achado difícil lê-las em alguns momentos. Se foi o caso, posso lhe assegurar que também achei difícil escrever as histórias em alguns momentos."

Eu adoro os contos do Mestre King. Alguns deles, inclusive, são tão memoráveis que viraram filmes ótimos, como Um sonho de liberdade (baseado em Rita Hayworth e a redenção de Shawshank), Conta comigo (baseado em O corpo) e O nevoeiro (baseado no conto de mesmo nome). Os dois primeiros você encontra no livro Quatro estações.

Os contos de Escuridão total sem estrelas, na minha opinião, não batem esses três aí, mas são todos muito bons. O horror tão típico da carreira de King tem, em duas das histórias, envolvimento com acontecimentos sobrenaturais, mas está predominantemente relacionado com pessoas comuns, como a gente. Do que as pessoas são capazes? Quais são os seus limites? Será que conhecemos tão bem uma pessoa a ponto de "colocarmos a mão no fogo" por ela? Não parece possível que o rapaz que ajuda idosos a atravessarem a rua seja, secretamente, um serial killer?

Parece.

O primeiro conto, 1922, coloca uma família de agricultores de Hemingford home em uma tragédia bizarra. Wilfred e Arlette James são donos de 100 acres, e começam a viver em discórdia porque a esposa está decidida a vendê-los para uma companhia. À medida que os dias passam, Wilfred percebe que só há uma solução para conseguir manter as terras: matar Arlette. Para isso, ele envenena o único filho, Henry, a fim de ter um cúmplice e ajudante. E Wilfred, apesar de cometer um crime horrível, é um cara completamente comum que acreditava que esse pecado seria compensado pelo futuro que ele e o filho teriam em sua próspera fazenda. No entanto, a angústia e mesmo culpa que os assolaram nos dias seguintes não foram páreas para a sucessão de consequências terríveis de seus atos.

O conto é contado (rs) do ponto de vista de Wilfred e em forma de confissão, muitos anos depois de 1922. E é, pra mim, a melhor história do livro. Não só porque King batizou uma personagem de Rhoda Penmark, haha.  
"Os ratos a encontraram... e daí? Eles não encontram todos nós no fim? Ratos e vermes? Mais cedo ou mais tarde, até mesmo o mais sólido dos caixões acaba se rompendo e deixando a vida entrar para se alimentar da morte."

Notícia boa: 1922 está sendo adaptado PELA NETFLIIIIIIXXX, com direção de Zak Hilditch e Thomas Jane e Molly Parker no elenco. Mal.posso.esperar. 

Em Gigante no volante, Tess é uma escritora de suspense leve que vem suplementando sua renda por anos, servindo como oradora em alguns eventos. Em um compromisso de última hora, Tess vai fazer uma palestra na cidade de Chicopee. No caminho de volta para casa, ao pegar um atalho, o pneu de seu carro estoura e ela é ajudada por um cara aparentemente gente boa, mas que acaba por estuprá-la e deixá-la abandonada para morrer. Tess consegue voltar para casa e, enquanto seu medo e desespero dão lugar à raiva, ela se vê cada vez mais disposta a botar em prática um plano de vingança.

Segundo conto que mais gostei. O horror está realmente presente em pessoas de quem nunca desconfiaríamos. Especificamente nos casos de estupros, isso é uma estatística assustadora, já que na maioria dos casos os estupros são cometidos por homens próximos de nós, e não por "monstros psicopatas" à espreita num arbusto. Pessoas comuns. E não porque gostem demais de sexo, já que estupros não têm nada a ver com sexo, e sim porque gostam de ter poder sobre o corpo feminino. Apesar das circunstâncias da vida do estuprador soarem não tão comuns assim, Stephen King posiciona essa questão muito bem no conto, principalmente em um diálogo entre Tess e uma outra personagem feminina. 
"Mulheres em todos os cantos do mundo estão sendo estupradas enquanto falamos. Meninas também. Algumas que, sem dúvida, possuem bichinhos de pelúcia preferidos. Algumas são mortas, outras sobrevivem. Das que sobrevivem, quantas você acha que denunciam o que aconteceu?"

O terceiro conto, e o mais curto, se chama Extensão justa e se passa em Derry. Ah, saudosa Derry, terra do Clube dos Perdedores e do palhaço Pennywise. Inclusive até suspeitei que ele fosse o vilão aqui também, mas King no posfácio tirou meu cavalinho da chuva ao mencionar o falecido Pennywise. Murchei como uma balão de festa esquecido no teto há 3 dias, mas tudo bem.

Anyway, Extensão justa conta a historinha de Dave Streeter, um cara que sofre de câncer em estágio terminal e, portanto, sabe que tem pouco tempo. Em um dia comum passeando fora de casa, ele resolve dar trela para um vendedor de quinquilharias na rua, que lhe oferece um "prolongamento de vida". Como tudo nessa vida tem um preço, esse negócio não foge à regra. Será que Streeter vai aceitar a proposta de poder viver mais, em troca de prejudicar a vida de um outro alguém? Esse conto vai mostrar pra você que o ser humano é um demoniozinho ambicioso. Como dizem mesmo? Dê o poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é.

(Curiosidade pra quem leu A Coisa: a vizinha de Streeter é a sra. Denbrough, mãe de Bill Gago.)
"Você precisa transferir esse peso. Em outras palavras, você tem que passar o mal adiante, se o mal for retirado de você."

Por fim, o último conto: Um bom casamento. Darcy e Bob Anderson são um casal feliz e em harmonia, juntos há 27 anos. Num belo dia, enquanto Bob viajava à trabalho, Darcy encontra acidentalmente uma caixa misteriosa na garagem de casa. O que ela descobre lá dentro vai mudar completamente a percepção que ela tinha sobre sua própria vida a dois; e a reflexão sobre o que ela precisa fazer a seguir vai influenciar não só seu casamento, mas a vida de seus filhos e a sua própria.

No começo deste post eu perguntei se é possível conhecer tão bem uma pessoa a ponto de por a mão no fogo por ela. Bom, talvez a gente pense na questão um pouquinho. Darcy, definitivamente, não: se antes ela tinha certeza de quem era Bob, após a caixa não fazia mais tanta ideia assim. Uma história muito bem amarrada em que vemos Stephen King brincar genialmente com o cotidiano e nossos hábitos, de forma que a gente consiga se projetar muito rápido nos personagens e no contexto.

(Outra curiosidade pra quem leu A Coisa: Bob é guia de escoteiros, e um de seus pupilos se chama Stan. Não creio que seja só um nome qualquer que King tirou da cabeça. :P)   
"Sei como vocês estão se sentindo mal, mas o sol ainda vai nascer amanhã. E quando isso acontecer, vocês vão se sentir melhor."
Em 2013, Peter Askin adaptou o conto para o cinema, chamado A good marriage. Já tá na minha lista pra conferir, claro.


Por fim, um elogio à edição da Suma de Letras: ficou chou o trabalho, com a capa, título e bordas das páginas todas pretas. Um livro de escuridão total. Parabéns aos envolvidos.


"...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. 
É quanto a você que não tenho tanta certeza."


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