22 maio 2018

BONECO DE NEVE, de Jo Nesbø: livro + filme

postado por Manu Negri

Sim, eu mesma fiz essa belíssima montagem, obrigada
Pelo que andei lendo, Boneco de Neve é um dos vários livros do norueguês Jo Nesbø cujo protagonista é Harry Hole, um investigador policial fodão, porém fodido no amor, no tato social e na sobriedade. Considerado pelo The Guardian seu livro mais ambicioso, Boneco de Neve também é conhecido como a obra mais arrepiante do escritor por outros veículos e leitores. Na história, Harry vira o cabeça de uma investigação que está atrás de um serial killer denominado Boneco de Neve, que mata mulheres quando cai a primeira neve em Oslo, deixando um presentinho montado no local do crime, que é isso mesmo que você está pensando.

A Noruega é um dos melhores países para se viver. Tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano do mundo e pessoas ajudam vovozinhas a atravessarem a rua. Não sei se é como na Islândia, onde a polícia provavelmente passa os dias jogando paciência enquanto algum crime acontece a cada 20 anos, mas ter um assassino em série à solta certamente não foi nada comum pra Harry e a polícia da capital. Considerado o mais capacitado para o caso, com curso no FBI e único profissional norueguês com captura de um criminoso do tipo no currículo, ele parte para uma investigação que envolverá vários personagens, inclusive alguns que possuem correlação, confirmando a teoria de um dos sujeitos do livro: “A Noruega é um país tão pequeno, que todos estão no máximo a duas pessoas de se conhecerem.”

Boneco de neve começa muito bem e sabe sustentar seu clima denso de suspense. Pelo menos comigo, foi até curiosa a forma como eu fui fisgada pelo clima; quase dava pra sentir o frio e a aura pesada e cinza da história. Reforçou minha ânsia em abrir o livro dentro do ônibus, mesmo em pé e carregando uma mochila de cinco quilos. No emaranhado de mistérios e coincidências, Nesbø amarra seus capítulos com pistas plantadas desde o início, nunca soando como encheção de linguiça, por mais que eu tenha visto alguns leitores reclamando disso. Algo que acontece no final da trama ou que Harry faz uma associação sempre tem a ver com algo já mostrado bem antes, então prestar atenção em cada detalhe é bão. Os diálogos são bem construídos, deixando o livro ainda mais fluido, quase como se a gente estivesse assistindo a um filme. Outra coisa que enriqueceu a história e o BG dos personagens foi o uso de POV com vários deles, mesmo em terceira pessoa - coisa que, inclusive, gosto mais do que quando aplicado em primeira pessoa. Já quanto ao carisma... bom, Harry Hole não é a pessoa mais carismática do universo, mas é o protagonista, então somos obrigados a engoli-lo. Quem mais ganhou minha afeição foi Katrine Bratt, a parceira dele no caso, que a propósito tem uma participação bem mais interessante do que parece (na falta de palavra melhor pra evitar spoilers).

O que pode ser chato pra alguns é a grande quantidade de personagens, mesmo com esse BG que não os deixa simplesmente balançarem soltos nas páginas, e os nomes. Norueguês não é um idioma familiar, e eu confesso que me confundi várias vezes com quem é quem. Outra coisa: a última parte do livro começou a dar uma caída, e a sensação foi de que o autor perdeu um pouco do esmero que teve pra amarrar a narrativa como ela estava rolando até então. Sem contar alguns clichês de romance policial que não chegam a cortar o clima, mas deram aquele gostinho ruim de "eu já li isso antes". De qualquer forma, quando fecho a capa de Boneco de neve e sinto a massa do livro em minhas mãos, penso que é um grande suspense que merece ser recomendado pelos clubinhos literários afora.

"Era quando encarava outros rostos a procura de suas dores, seus calcanhares de aquiles, seus pesadelos, motivos e razões pelos quais decepcionavam a si mesmos, enquanto ouvia suas mentiras cansativas e tentava encontrar um sentido no que fazia: aprisionar pessoas que já estavam aprisionadas em si mesmas."

Ficha técnica
Editora: Record
Tradutora: Grete Skevik
Páginas: 420
Compre: Amazon



JÁ O FILME...


A expressão de Michael Fassbender representa a minha assistindo a essa grande pilha de merda saída de alguma caçamba de lixo de Chernobyl. E talvez a dele também, tendo que encarar sua filmografia atualizada. Até Val Kilmer foi parar nessa enrascada.

Não é apenas a velha história de "o livro é sempre melhor que o filme", porque a adaptação cinematográfica de Boneco de neve conta OUTRA HISTÓRIA, e não estou brincando. Adaptaram tanto, cortaram tanto, costuraram tanto, que muita coisa mudou. E, além disso, as coisas acontecem rápido demais, não existe desenvolvimento decente de personagens e situações, parece que alguns cenas foram inseridas e o seu desenrolar completamente esquecido, como se SEI LÁ tivesse acabado grana no meio das filmagens e o diretor chutasse o balde; "vai assim mesmo, quem reparar, foda-se". Até a montagem do filme é prejudicada, ora gerando um ritmo confusamente acelerado, ora não encaixando sequências de ação direito. Se eu fosse o Jo Nesbø, só não estaria chorando e deslizando pelas paredes porque um homem com saldo bancário de seis dígitos não quer guerra com ninguém.

Assista se você não tem nada melhor pra fazer durante duas horas da sua vida ou se você aprecia uma fotografia bonita, porque, sinto muito, Fassbender não aparece em nu frontal em nenhum momento.


0 comentários:

Postar um comentário