11 maio 2018

Sobre WHAT REMAINS OF EDITH FINCH, vencedor do "Oscar dos videogames"

postado por Manu Negri


Há um ano era distribuído pela Annapurna Interactive o game de suspense e aventura da Giant Sparrow que, em 2018, ganharia o BAFTA Games Awards de "Melhor jogo" – contrariando as apostas em Horizon Zero Dawn, sobre o qual já falei aqui. Disponível para PC, PS4 e Xbox One, What remains of Edith Finch conta a triste história das gerações da família Finch, que acreditava estar sob alguma maldição, já que os seus membros costumam morrer de forma trágica e repentina.

No jogo, estamos na pele de Edith, última da linhagem dos Finch, que retorna à antiga casa de seus antepassados anos depois de uma tragédia. Finalmente livre para explorar o lugar, ela tem a oportunidade de conhecer todos os cantos por onde viveram, já que praticamente cada cômodo da casa pertenceu a um Finch e sobreviveu até o momento como um grande memorial e um ode às suas (muitas vezes curtas) existências. Com um caderninho em mãos, nós, como Edith, passamos a reconstruir a árvore genealógica da família ao descobrirmos passagens secretas e quartos escondidos à medida que somos convidados a experimentar o último dia de vida de cada pessoa


A experiência com o jogo é fascinante. Com visão em primeira pessoa, desde o início somos absorvidos pelo ambiente misterioso que começa no bosque que circunda a casa desengonçada e meio assustadora, cujas legendas da narração da nossa guia Edith surgem na tela como os textos de um livro de contos de fadas. A construção dos inúmeros cenários internos merece mil elogios; meio claustrofóbicos, causam angústia e ternura ao mesmo tempo, uma vez que sabemos que os objetos abandonados fizeram parte dos sonhos e dores de cada Finch, gente como a gente, personagens com os quais o jogador cria afeição rápido, mesmo sabendo que eles não estão mais ali. Pra otimizar a imersão, é fundamental evitar perder detalhes espalhados pelos cantos que ajudam a montar toda a trama.   

Num geral, a jogabilidade de What remains of Edith Finch é bastante simples, como num game point and click. Aqui, é preciso apenas andar, usar o zoom para olhar coisas de perto e interagir com objetos e executar outras ações com R2 (no meu caso, no PS4). No entanto, o jogo mostra todo o seu brilho nos momentos em que calçamos os sapatos dos membros da família em seus últimos suspiros, quando a dinâmica é adaptada para cada universo particular para contar, muitas vezes de forma lúdica, o que aconteceu com cada um. Em um momento, controlamos brinquedos numa banheira; em outro, somos um gato ou uma cobra; em mais outro, montamos o quebra-cabeças de um acontecimento exclusivamente por trás das lentes de uma câmera. Manos, o bagulho é daora mesmo. E funciona tão bem que até hoje, enquanto como meu cereal matinal, me pego encantada com a história de um Finch específico, em que vivenciamos os devaneios de um sujeito que passa seus dias fatiando peixes enquanto sonha com mundos fictícios para escapar de sua própria realidade. A maneira com que manipulamos a manete e temos que prestar atenção em determinada parte da tela é perfeitamente compatível com o que o personagem estava sentindo.

Trecho do meu jogo

A cerejinha no bolo fica por conta da trilha sonora COISA MARLINDA de Deus. Um dia aí, incrusivs, precisei pausar o game por um tempo e deixei de bom grado o menu em stand by com a música-tema tocando repetidamente. O desfecho sobre o destino de Edith, como uma "Finch amaldiçoada", pode até ser um pouco previsível para alguns, mas foi feito de forma tão bonita que fecha o jogo satisfatoriamente, deixando margem pra interpretações sobre a fugacidade da vida, a importância da família no nosso desenvolvimento, a força dos laços e sobre seguir o coração.

Posso ter preferido que Horizon Zero Dawn ganhasse o prêmio no lugar dele, mas fiquei um bom tempo, após concluir What remains of Edith Finch, pensando em seus personagens e trajetórias como pessoas que conheci de verdade. E isso me marca mais do que jogos com mecânicas extremamente elaboradas.





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