07 agosto 2014

Perda

postado por Manu Negri


Foto: shenanigan87

Marcos se sentou no banco da praça movimentada, ainda segurando o envelope azul aberto. Era difícil acreditar no que aquelas duas páginas ali dentro diziam, mas seu nome no cabeçalho não enganava, muito menos o diagnóstico. Uma doença em estágio terminal o mataria em 2 meses.

Passando os olhos do envelope para o chão, se imaginou avisando a família. Que, no seu mundo, significava os avós, os dois meios-irmãos distantes e Bolota, o gato. De qualquer forma, o quadro não parecia muito bom: gente chorando, abraçando, dizendo que Marcos era muito jovem, mas que Deus sabe o que faz (porém, se rezar bastante, talvez Ele repense melhor).

Do próprio Marcos, não caiu uma única lágrima.

Em vez de passar os últimos meses de vida lamentando, era sensato aproveitar o tempo que restava. Levantou a vista para a rua agitada. O crepúsculo nunca anunciou um fim de dia tão lindo, os detalhes nunca se tornaram tão importantes, os sorrisos das pessoas nunca foram tão bonitos, as vidas de desconhecidos nunca pareceram tão comoventes.

Marcos pensou no que sempre quis fazer, mas nunca tinha feito. Se levantou do banco em direção à estação de metrô, imaginando-se fotografando o mundo ao invés de passar seis dias por semana vendendo purificadores de água. Sairia de uma agência de viagens com passagens pra conhecer Paris. Beberia sem se preocupar com a ressaca do dia seguinte. Pularia de bungee jump. Também começaria a aprender dança de salão – por que não?, pensou, enquanto marcava uma aula experimental na Escola Primeiros Passos, cujo telefone estava pregado na parede do trem.

A situação toda era muito estranha, mas Marcos estava sorrindo.

Abriu as portas do apartamento conquistado com tanto esforço, percebendo que cada móvel, cada parede pintada com as próprias mãos e cada quadro ganhavam um valor ainda mais especial. Era o que deixaria ali, em vida, quando já não faria mais parte dela. Diante dessa epifania, foi difícil desfazer o nó na garganta.

Quando se preparava para um banho quente, o celular tocou. Marcos levou uns três segundos para lembrar que deveria atender. Era o seu médico, com notável alívio na voz. Disse que agradecia aos céus por encontrá-lo. Seu exame, do envelope azul, foi trocado pelo de outro paciente. Marcos não ia morrer coisa nenhuma. Tirando a enxaqueca, estava saudável como um cavalo. Meus parabéns e desculpa qualquer coisa.

Ele desligou, com os olhos fixos num ponto invisível. Depois do que pareceram horas, começou a discar. Quem atendeu foi a recepcionista da escola de dança. Marcos pediu, por gentileza, pra cancelar a aula experimental. Então deitou-se na cama, por cima da colcha, ao lado de Bolota, e desligou o abajur com um grande suspiro.

O expediente amanhã seria longo.


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