04 janeiro 2020

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS é pura poesia visual

postado por Manu Negri


(pode seguir sem medo, não tem spoilers!)

Antes de qualquer coisa, um feliz 2020 pra quem vive a vida no modo episódico e aproveita as viradas de ano para retomar projetos, tirar desejos do papel, investir nas verduras, perder barriga, ver mais filmes. Como eu.

A quem possa interessar, em 2019 entreguei este blog às moscas sem data pra retorno por uma série de motivos envolvendo tempo apertado e muito trabalho pra fazer (ainda não o conhece? Clica aqui, rapaz!). A princípio, diante desse caminho, minha ansiedade e frustração atingiram seu pico, mas nada pude fazer a não ser reconhecer as minhas prioridades. Agora, neste novo ano, depois de organizar melhor meus horários, pretendo voltar a escrever mais aqui, ainda que mais esporadicamente. E o motivo que me fez despertar esse defunto, assunto do texto de reestreia, foi Retrato de uma jovem em chamas.

É com pesar que digo que, desta vez, não farei uma lista dos melhores filmes assistidos em 2019 porque foi o ano em que menos investi no cinema em muito tempo. Mas Retrato é um dos poucos que assisti na vida e que considero simplesmente perfeito.


Dirigido e escrito pela francesa Céline Sciamma (responsável pelo também excelente Tomboy), ovacionado em Cannes e ganhador do prêmio de Melhor Roteiro, além do Queer Palm, o filme é ambientado em uma ilha isolada, no ano de 1770, onde vive uma condessa e sua filha, Héloïse (Adèle Haenel), prometida para um rapaz de Milão. Mas, para aprovar a noiva, ele precisa receber um retrato dela, tarefa atribuída à pintora Marianne (Noémie Merlant). O problema é que Héloïse se recusa a se casar, portanto, Marianne precisa fingir que é sua dama de companhia durante o dia e pintá-la em segredo à noite.

Retrato de uma jovem em chamas é uma pintura, tal qual o cerne da sua história. Cada frame é um quadro. Cada diálogo, um deleite. Um filme sobre mulheres, feito por mulheres. Uma poesia visual, um orgasmo cinematográfico, uma história de amor eternizada na arte. Eu queria gastar meia página com analogias que demonstrem o quão extasiada fiquei ao assisti-lo.

Como a imagem deste texto e a sinopse sugerem, à medida que os dias passam, Marianne e Héloïse se aproximam cada vez mais e se apaixonam. E a forma como isso é contado e como essa relação se desenvolve estão em todos os detalhes em cena, por meio de camadas ricas, uma fotografia impecável que constantemente nos remete às pinturas do Romantismo, cores, gestos, enquadramentos, olhares e o símbolo principal da história: o fogo.


Ele está presente quase o tempo inteiro aqui, indicando a progressão da dinâmica das personagens em um jogo delicado e sensual ao mesmo tempo. Temos a silhueta nua de Marianne fumando em frente a uma lareira; o momento belíssimo quando ela descobre o antigo retrato inacabado de Héloïse, em que a pintora passa a chama da vela que carrega pela pele do braço de sua musa, como se o acariciasse, até estacionar no lado esquerdo de seu peito e deixar arder, literalmente; culminando na cena em que ambas enfim – como posso dizer? – se entregam uma à outra e a luz do fogo por trás as ilumina completamente.

Olha, eu fiquei até sem ar.

Retrato de uma jovem em chamas abre a conversa sobre observar e ser observado. Enquanto objeto do retrato, Héloïse é contemplada por Marianne, que, por sua vez, também é contemplada por Héloïse. Inspiração mútua. Foi como li em algum lugar: apesar de pinturas desse tipo serem feitas para o consumo masculino, Céline Sciamma as coloca como parte de histórias LGBT não contadas. Principalmente por meio do olha feminino, que faz essas duas personagens se enxergarem e se reconhecerem uma na outra. Há um take, inclusive, envolvendo um pequeno espelho redondo, que reforça brilhantemente essa ideia.

Dessa forma, a diretora quebra o conceito do amor idealizado. Com seus vestidos vermelho e verde – cores complementares –, Marianne e Héloïse estão lado a lado em uma perspectiva de igualdade. Esta última não admite ser retratada como não é, o que é revelado quando Marianne precisava memorizar seus traços para pintá-la.

Em outro momento, a filha da condessa confessa seu desejo de mergulhar no mar mesmo sem saber se consegue nadar, representando o contraste de sua aparente serenidade com o turbilhão de emoções dentro de si. "Eu quero isso, mas não sei como será". E acompanhamos cada descoberta como essa com um sobressalto no coração, conscientes de que algo está germinando, até elas não poderem nadar de volta pra areia. Um clímax evidenciado de maneira impressionante, quando as protagonistas estão separadas por uma enorme fogueira ao ar livre e a barra do vestido de Héloïse se incendeia (na melhor tradução do título do filme), enquanto um grupo de mulheres canta em latim "Fugere non possum", "não posso fugir" – tanto do sentimento em vigor quanto do espaço e do tempo em que vivem. 


Come on, estamos falando do século XVIII. Retrato é honesto ao, nos seus primeiros minutos, já deixar claro que o realismo histórico que propõe não abre exceções para um "final feliz". Portanto, nossa imersão vai ao encontro de como esse romance sobrevive por meio da memória, análogo ao mito de Orfeu e Eurídice. Ele desce ao mundo de mortos para resgatar sua amada sob a condição de que não olhasse para ela até chegarem ao mundo superior. Porém, perto de cumprir o acordo, ele não resiste e desobedece Hades.

A discussão das personagens sobre o que levou Orfeu a isso e sua conclusão dentro da alegoria de Retrato de uma jovem em chamas é uma das passagens mais lindas que já presenciei num cinema e me fez implodir em lágrimas.

Além das impossibilidades do amor, o filme também nos apresenta um contexto maior sobre a cumplicidade entre mulheres, que se apoiam, se ajudam e são donas do próprio nariz, em contraponto à sociedade extremamente patriarcal para a época. Podemos sentir a pressão dessa condição quando nos deparamos com a presença de um homem num longa 98% tomado por elenco feminino e ficamos tensos.



Gostaria muito de ver Retrato no Oscar 2020, mas acho pouco provável de acontecer porque sua distribuidora é a mesma de Parasita (também foda pra caralho), que tá fazendo campanha pesada pra esse filme nas premiações. E com razão. Por isso, o escolhido da França pra tentar uma vaga entre os candidatos a Melhor Filme Internacional foi Les Miserábles. De toda forma, Retrato é, sem dúvidas, uma obra-prima e um dos grandes nomes de 2019. 

PELO AMOR DE DEUS, NOÉMIE MERLANT, ME PINTE COMO UMA DE SUAS FRANCESAS

– Você sonhou comigo? 
– Não. Eu pensei em você.

Nota:






Retrato de uma jovem em chamas estreia nos cinemas brasileiros no dia 9 de janeiro de 2020.


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