01 janeiro 2021

Review: TELL ME WHY - o primeiro game com protagonista trans

postado por Manu Negri

Não vou dizer os motivos de eu ter ficado ausente em praticamente 2020 inteiro porque esse ano dispensa justificativas, e também não prometo frequência de textos por aqui, por mais que eu queira, mas o importante é que vim tirar a poeira do blog no primeiro dia de 2021. 

Hoje, além de sonhar com vacinas, concluí a gameplay do game Tell me Why, lançado em setembro passado pelo estúdio francês DONTNOD, criador da franquia Life is Strange. Mais uma aventura episódica pra conta, com três capítulos de 2h30 - 3 horas cada (dependendo do seu nível de exploração, as always); mas, diferentemente de LiS, em que o espaço de lançamento entre os episódios era de meses, aqui foi de apenas uma semana pra cada. ATÉ QUE ENFIM, NÉ?

Disponível para Xbox, PC e Steam (onde joguei), Tell me Why acompanha o reencontro dos gêmeos idênticos Alyson e Tyler Ronan 10 anos depois de uma separação abrupta, ainda crianças, quando sua mãe atentou contra a vida do garoto, movida por transfobia. De volta à sua cidade natal no Alaska, onde o único lugar quente deve ser o cu de uma foca, ambos precisam vender a velha casa da família. No entanto, no meio do caminho, decidem montar um quebra-cabeças de suas vidas para conseguirem seguir em frente.  

Tratar de temas sociais virou uma característica notável da DONTNOD. Enquanto no primeiro Life is Strange a abordagem da relação de Max e Chloe se transformando de amizade para amor romântico foi mais discreta (mas não menos palpável), no segundo game da franquia o estúdio soltou a mão na bandeira do arco-íris: criou uma rota bissexual para o Sean, e aqui, em Tell me Why, temos o primeiro protagonista transsexual da história dos games. Tudo construído com muita sensibilidade e com a colaboração do GLAAD, um grupo de defesa LGBTQI+. 

A identidade de gênero do Tyler é algo bastante marcante na história, assim como o impacto disso para ele, mas definitivamente não é o que move a narrativa. Podemos inclusive dizer que Tell me Why daria um ótimo Life is Strange 3. Afinal, como comentou minha parça Áurea, a DONTNOD importou várias coisas da franquia, como uma estranha fixação por piratas, polaroids e deixar crianças órfãs e traumatizadas. 

Piadas à parte, TMW e LiS compartilham trilhas sonoras massas, um toque sobrenatural, temas que englobam conexões e relações humanas, uma direção de arte linda (alô, BRKS Edu) e a importância de fazer as pazes com o passado.


A MECÂNICA 


Além disso tudo, Tell me Why possui a mesma mecânica de Life is Strange. Exploração de cenários e coleta de objetos, diálogos guiados e, claro, sistema de escolhas. Sim, meu chapa, esse game é feito de escolhas, assim como nossas vidinhas, e as decisões que você toma influenciam a história.

A gameplay em point and click não me incomoda, até porque sempre tem um viés nostálgico por causa de LiS, mas às vezes a exploração - apesar de servir para conhecermos melhor a cidade e seus moradores - fica meio sem graça. 

O ponto alto está na ferramenta de telepatia e de reviver memórias.

Alyson e Tyler compartilharam muito mais que o útero da mãe: como gêmeos, compartilharam a capacidade de se comunicar mentalmente (o que eles chamam de usar a Voz) e de vislumbrarem lembranças como se elas estivessem acontecendo no presente, numa espécie de holograma.

Essas habilidades estão intrinsicamente ligadas às escolhas que existem ao longo do jogo. E funcionam basicamente para definir quão fortes os laços entre os irmãos ficarão ao fim da história, além de estabelecer seus próximos passos na vida. Porém, em LiS 1 e 2 as escolhas não deixam o jogador entender com clareza para quais caminhos ele está sendo levado, o que prefiro muito mais. Tanto é que a última decisão em Tell me Why foi extremamente fácil para eu tomar; acredito que pra maioria de quem jogou também, a menos que quisessem simplesmente testar pra onde a outra escolha levaria. Mas estou falando sob a ótica da minha experiência pessoal, claro.

Atenção ao fato de que você pode perder diálogos e cenas inteiras se fizer uma ação diferente ou uma exploração do ambiente na "ordem errada", e perder informações relevantes na hora de escolher o que vai perguntar ou responder em diálogos.

Vale também lembrar que memórias são algo frágil e mudam detalhes com o passar dos anos. Ou seja, uma coisa que você vive agora se tornará uma lembrança meio abstrata daqui a um longo tempo. Será então que as de Alyson e Tyler são mesmo fiéis à realidade? 



O LIVRO DOS GOBLINS E OS PUZZLES


Se em LiS 1 e 2 a gente tinha um diário como ferramenta importante pra entender outros aspectos das tramas, aqui temos o Livro dos Goblins - uma coletânea de contos de fadas criados pelos gêmeos e por sua mãe que fazem uma analogia gigante com todos os personagens e acontecimentos que foram vitais para o ponto histórico em que estamos no game.

Leva tempo, mas é importante ler todos. Além de abranger seu olhar sobre a história e (talvez) te levar a deduções das reviravoltas, os contos são essenciais na resolução dos vários puzzles pelo caminho. Isso eu achei bem legal: tive a impressão que os puzzles vieram em maior quantidade em relação à outra franquia de jogos.

Sobre os personagens-fantasia, são todos os colecionáveis que você pode encontrar ao longo dos capítulos. No fim do game, é possível reuni-los fisicamente em um momento-chave.


EASTER EGGS


BROOKLYN 99

Eu (ainda) não assisto à Brooklyn 99, mas como também bem apontou a Áurea, aparentemente o policial Greggs foi bastante inspirado no personagem Norm Scully da série

Coincidências existem e às vezes não, crianças. 


LIFE IS STRANGE 1

(se não quiser spoilers, pule para o último parágrafo do texto!)


Abri um sorrisão quando encontrei esse cartaz no segundo episódio de Tell me Why. Não, os games não fazem parte do mesmo universo, mas a referência está lá. É uma propaganda de câmera instantânea famosa, que faz o Michael (personagem que Tyler conhece quando chega à cidade) relembrar: "Era algo poético sobre viagem no tempo e a vida ser estranha, eu acho."

BA-TUM-DSS


VAMPYR


No mesmo cenário, tem esse cartaz-easter egg de Vampyr, um RPG vampiresco criado pelo estúdio e disponível desde 2018.


REMEMBER ME


E esse aqui, de Remember me, primeiro jogo lançado pela DONTNOD, em 2013.

Se você visualiza os três cartazes, ganha uma conquista/trofeuzinho. ;)


No frigir dos ovos, o game tem uma história bonita, bons gráficos (longe daquele visual razoável de LiS 1) personagens bens construídos e bem interpretados e um apelo emocional forte. Porém, não me envolvi tanto quanto gostaria, e acho que isso se deve em parte ao formato mais curto da narrativa, que não me ajudou no quesito desenvolvimento e apego aos personagens secundários. (mas caíram lágrimas em determinado momento perto do fim, viu?)

Agora, uma pergunta: Backstreet Boys tá tocando na sua cabeça?




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