14 setembro 2019

IT, CAPÍTULO 2: livro vs. filme e por que achei este último meio cu

postado por Manu Negri


O QUE NINGUÉM QUER SABER


Salve, salve!

(eu nunca falo isso na vida real)

Fiquei sem saber como começar um novo post depois de quase 6 meses sem escrever nada. Outras prioridades envolvendo meu trabalho como ilustradora e artesã (olha meu Instagram na coluna da direita) tomaram meu tempo e infelizmente joguei o blog pra escanteio. Mas sempre com o coração apertado, esperando por um momento “propício” pra voltar a palpitar e, talvez, manter alguma frequência de publicação.

Muitas oportunidades passaram. Talvez virem post em breve, mas, quando IT – capítulo 2 estreou, eu sabia que era hora de tirar algumas horinhas sei lá de onde pra atualizar esse cafofo. Afinal, eu já havia escrito que A Coisa é meu livro favorito de todos os tempos e que a primeira sequência do filme era uma adaptação decente. Faltava este texto pra fechar o ciclo.


IT, CAPÍTULO 2 SEM SPOILERS!


Lançado em 2017, o primeiro filme é considerado o filme de terror mais bem sucedido da história. Eu particularmente fiquei surpresa com o feito, porque acho que vivi mais na bolha do hype de quem leu o livro e menos no hype do blockbuster de horror.

Neste intervalo de 2 anos, foi natural que a empolgação tenha baixado um pouco mesmo com a divulgação do elenco adulto. Já perto da estreia, o comichão voltou a se intensificar com as primeiras críticas – todas positivas e um percentual alto de aprovação no Rotten Tomatoes. O primeiro baldinho de água fria veio às vésperas da estreia, quando, de repente, várias pessoas saíram da caverna justamente pra tacar tomate no filme.

Infelizmente, me juntei a elas horas depois.


Eu parto do princípio de que A Coisa é realmente um livro difícil de adaptar, principalmente as partes que envolvem os Losers adultos enfrentando Pennywise. A batalha é muito mais mental do que física, e eu, sinceramente, não sei qual seria a melhor maneira de transpor isso pra tela.

Em contrapartida, se não sabe brincar, não desce pro play. Estou falando com você, Andy Muschietti.

Muschietti (de Mama) foi o diretor de It no primeiro filme e também é nesta continuação. Em 2017, tomei notas dizendo que ele sabe usar recursos pra assustar e criar um clima de tensão, mas exagera um pouco nos jumpscares. No capítulo 2, achei que esse clima esteve muito menos presente, dando lugar a ainda mais sustinhos baratos, dos quais estou cansada em filmes do gênero. Estou tão vacinada que sei exatamente quando vai ter jumpscare, o que torna tudo mais previsível e menos eficaz. It, na minha opinião, seria muito mais marcante se andasse pelos caminhos do terror psicológico e sugestivo.

Em suma, It - Capítulo 2 é muito mais fraco que o seu antecessor.

Aqui, 27 anos depois, os Losers se encontram novamente em Derry para acabar de vez com a entidade que causa estragos na cidade em ciclos. Eles são forçados a se lembrarem do que aconteceu (porque, quanto mais longe de Derry, menos memórias do que você viveu existem - e isso é parte crucial no livro também), novamente enfrentando seus medos mais profundos.

A parte boa é que o elenco adulto tem química e você realmente acredita que eles são velhos amigos se revendo. Além disso, ponto pra equipe de casting do filme, que acertou em cheio ao selecionar atores que se parecem real oficial com suas versões crianças (Amy Adams e Sophia Lillis, quem faz a Beverly, dão mais match, mas você vai ter que conferir isso na série Objetos Cortantes, em que interpretam o mesmo papel).

Bill Hader, como Richie adulto, é a melhor coisa da turma. Suas piadas e reações são, muitas vezes, o alívio cômico para as cenas, mas Muschietti pesou a mão nesta sequência e vários momentos bem-humorados acabaram quebrando totalmente a atmosfera, que era pra ser sombria.

O desenvolvimento dos personagens (aliás, que desenvolvimento?) é bastante prejudicado também. Henry Bowers, coitado, aparece só pra constar sua inutilidade. O pecado foi terem dividido os filmes em infância e "tempos atuais", sendo que no livro as duas épocas são intercaladas constantemente, evoluindo os Losers lá e cá. Se você viu It 2, pode confessar: os momentos de flashback são os que mais aquecem o coração, não?


Pennywise, o trunfo do filme, aparece pouco pro meu gosto. Parabéns por tentar carregar o filme nas costas, Bill Skarsgård.

De resto, é uma sequência repetitiva e praticamente formulaica em relação ao primeiro filme com os personagens precisando se separar, a fim de confrontarem seus medos pessoais, levando um susto com alguma aparição do tinhoso. Quase 3 horas arrastadas de projeção nessa nhaca que sequer amedronta o espectador. Aquela cena veiculada antes da estreia, em que a Beverly volta ao antigo apartamento do seu pai e encontra uma senhorinha bizarra, prometia bastante, mas tudo vai por água abaixo quando Muschietti resolve inserir uns CGI HORROROSO no meio.

É cada monstro de borracha bem Super Xuxa Contra o Baixo-Astral, baranguice, clichês, diálogos sofríveis e trashzeira fora de hora que eu cheguei a sentir vergonha pela Jessica Chastain, me perguntando AMIGA, O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AÍ?   

Aliás, tem uma piada recorrente no filme sobre os finais dos livros do Bill, que virou escritor, serem ruins. Isso nada mais é que uma piada para o próprio Stephen King, autor de A Coisa, que é conhecido pelas histórias fantásticas e finais que não estão à altura. Pra mim, soou quase como uma justificativa para os próprios defeitos de It - Capítulo 2. "Olha só, a gente nem se leva tão a sério assim". Pô, e eu vou levar, então?


SPOILERS (INCLUSIVE DO LIVRO) FLUTUANDO: CUIDADO 


Além da piada dentro da piada, It 2 traz outros easter eggs bem legais, responsáveis por algumas das únicas vezes em que abri um sorrisão no cinema. 

O próprio Stephen King faz uma ponta no filme, como o dono da loja de quinquilharias que vende para Bill sua velha bicicleta Silver, que não via desde que abandonou Derry. O banho de sangue que Beverly leva no banheiro, num dos artifícios criados por Pennywise, é uma referência direta à Carrie, a estranha, assim como o "Here's Johnny" de Henry Bowers ao tentar forçar a porta, representando a provavelmente cena mais icônica de O iluminado.

O que não é piada é o terceiro ato de It - Capítulo 2. Como eu disse, é um dos trechos mais "psicodélicos" do livro, então a equipe da adaptação tinha que assumir a bronca.  



O tal "Ritual de Chüd" que é mencionado magicamente pela primeira vez nesta sequência é um dos primeiros capítulos da parte I do livro, se não me engano. As crianças o aprendem para tentar entender a origem da Coisa e replicam no futuro para tentar eliminá-la. No bunker do Barrens, elas se intoxicam de fumaça e têm uma visão de um asteroide chegando à Terra milhões de anos antes de Derry virar uma cidade do Maine.

Esse era a Coisa, uma entidade autodenominada "O devorados de mundos" originada no Macroverso que, na interpretação dos leitores, é basicamente a encarnação do Mal, em contraponto com o Bem, representado na figura de uma tartaruga (o máximo que o filme faz é colocar uma tartaruga empalhada em primeiro plano, em uma cena aleatória, só pra agradar a gente). Admito que não gosto muito dessa origem criada por King e imaginei que Muschietti iria reimaginar o surgimento do vilão de um modo mais humano, mas fui enganada pela propaganda (ps: sou publicitária). 

O fato é que a forma original do Pennywise é uma forma que a mente humana não consegue assimilar 100%, mas que, no livro e no filme, ganha os contornos de uma aranha gigante. Eu até gostei da maneira que adaptaram, ao menos em comparação ao que fizeram na minissérie dos anos 1980. Ponto pra eles. 

Mas, aqui, o Ritual de Chüd ficou conhecido somente pelo Mike adulto como a maneira que os povos antigos arranjaram para batalhar contra a Coisa. Exigia que cada integrante do ritual trouxesse um "artefato" que simbolizasse uma importância para ele, mãos dadas, união, a crença de que podiam vencer e um objeto original desses indígenas. Algo que nunca foi mencionado antes no filme anterior e que, além de barango, transformou o Macroverso de Pennywise em bolinhas de pompoarismo saindo de uma vagina dentada.

A forma como os Losers matam a Coisa é, basicamente, como no primeiro It. Com bullying, rs. Gostei do fato de que precisaram enfraquecê-la de acordo com a forma que ela assume - no caso, o palhaço -, para torná-la algo passível de ser morto por mortais, mas essa conclusão, até simples, parece que demorou demais pra chegar. E não foi fortemente associada ao fato de que é porque os Losers haviam se esquecido de como fizeram na infância. Se a Coisa se alimenta do medo, nada mais eficiente do que mostrar o oposto pra ela. 

Por fim, o fim do filme. Ao contrário dos pobres livros de Bill e da piada com Stephen King, foi satisfatório pra mim, ainda que antagônico ao livro. Explico: na obra original, pois mais que a Coisa tenha sido completamente eliminada, quem sai de Derry continua se esquecendo do que viveu na cidade. E isso acontece com os Losers; à medida que se afastam, suas memórias vão se apagando. No filme, não. De qualquer forma, felizmente Muschietti não se esqueceu de que a essência da história está na relação de amizade entre essas sete pessoas e de como se apoiam uma na outra para crescerem. O horror é pano de fundo.   

Nesse contexto, gostei da justificativa do suicídio do Stan (no livro, ele simplesmente se mata por saber que não iria suportar encontrar a Coisa de novo) como uma jogada "de mestre" para os amigos se reunirem. E gostei, também, da paixão secreta do Richie pelo Eddie. No livro, a insinuação é de que apenas o Eddie fosse gay - e com um crush no Bill, ainda por cima.

Bufei durante boa parte do filme, mas foi um pouco difícil segurar a emoção quando ele escreve R+E na ponte do beijo e vemos pela última vez as crianças em suas bicicletas, quando era possível sorrir em Derry. Foi um pouco do que senti lendo a última página de A Coisa, mas sabendo que aqueles sete personagens inesquecíveis, dali a um tempo, não se reconheceriam mais. 



Nota:






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