24 fevereiro 2021

Review: Uma luta contra a Inquisição em A PLAGUE TALE - INNOCENCE

postado por Manu Negri

Quem é inquisidor e quem é praga pode entrar e pegar um cafezinho porque o texto da vez é, novamente, sobre um game que trata dessas duas coisas! Já assumi que deixei de ser a leitora assídua e a cinéfila chata de outrora para mergulhar nesse mundo de violência, alienação e nerds punheteiros que é o mundo de jogos. Follow the baile. 

A plague tale: innocence, disponível para PC (Windows), PS4 e Xbox One, é um game indie desenvolvido pelo Asobo Studio e publicado pela Focus Home Interactive. Bastante focado em sua proposta de história, coloca o jogador para acompanhar a jornada dos irmãos Amicia e Hugo na realidade da França do século XIV, em que precisam escapar dos soldados da Inquisição, que estão atrás do menino por causa de uma misteriosa doença que o isolou do mundo desde o seu nascimento. 

Com uma gameplay de cerca de 20 horas, na pele da adolescente, temos que aprender a lidar praticamente sozinhos com alguém tão sangue de "nosso" sangue, mas que mal conhecemos justamente pela impossibilidade da convivência. É nesse período que os laços de confiança, afeto e, também, desavenças, se aprimoram, fazendo com que nós, jogadores, também desenvolvamos nossa própria empatia por eles. 

Como se não bastassem o cenário hostil de uma guerra, a perseguição e a luta por sobrevivência por si só, Amicia e Hugo também enfrentam pelo caminho uma horda de ratos que não só transmite uma praga terrível, como pode te devorar vivo.  

É o tipo de jogo pra relaxar depois de um longo dia de trabalho.


Achou interessante? Então confere mais detalhes sobre jogabilidade e pontos positivos e negativos logo mais embaixo - SEM spoilers da história. :D



JOGABILIDADE: TACA PEDRA NA GENI

Como eu sugeri, o forte de A plague tale é a história e isso pode desagradar algumas pessoas, uma vez que, nesse caso, o percurso é totalmente linear e tira um pouco de desafio. Eu particularmente não desgosto, pois perdida já basta na vida.

Para lidar com obstáculos humanos e animais, Amicia precisa usar uma atiradeira da qual é muito familiar, primeiramente atirando pedras e, à medida em que avançamos, outros itens, que ela consegue fabricar com base em receitas de alquimia. Assim, ela ganha munições específicas para diferentes demandas, como matar, distrair ou atordoar inimigos e afastar ratos. 

Além disso, Amicia consegue aprimorar sua habilidade na alquimia, arrumar mais espaço na bolsa e silenciar sua arma, o que é bem útil, já que dá pra armazenar mais matéria-prima e não chamar a atenção de soldados antes de acertá-los.    


TENTE FUGIR DE GENTE BURRA

Furtividade e combate a longas distâncias são o que dominam A plague tal na maior parte do tempo, dentro do sistema linear em que há um roteiro/caminho predeterminado pra você executar.

O problema surge quando essa mecânica entra em atrito com a mobilidade de Amicia e do inimigo. Eu, no auge do meu sedentarismo, consigo correr atrás de ônibus com mais autoridade do que a protagonista quando tenta fugir dos soldados, travadona na artrite. Eles são muito mais velozes que você quando te perseguem, portanto, um passo em falso (no sentido literal e figurado) te leva à morte. 

Mas o que têm de rápido eles têm de burros: com uma inteligência artificial prejudicada, numa hora te enxergam escondida atrás de um arbusto, mas basta você se mover para outro esconderijo e em questão de segundos eles não fazem mais ideia do caminho que você pode ter feito.  


Conclusão: entendendo a programação dos soldados (pra onde caminham e o que fazem, que são sempre um loop), é possível se safar de um lugar lotado de inimigos sendo sorrateira e calculando bem precisamente seus passos, porque a limitação de movimentação é clara. Inclusive algumas ações implicam uma série de procedimentos que você precisa tomar usando diferentes itens (aqueles que você fabricou) através do menu radial e, ainda por cima, se mover. E sabemos que só uma pessoa no mundo conseguiria fazer isso com 100% de maestria enquanto assa um lombo: Rodrigo Hilbert. 

Além desse tipo de combate, os pequenos desafios ficam por conta de puzzles em transições de cenários e para se livrar dos ratos, que eu curti muito. No entanto, atenção na hora de pedir ajuda para seus aliados (que são NPCs / personagens não controlados): a burrice dos soldados se aplica a eles, o que pode tornar o quebra-cabeça um pé no saco se você não realizar as ações na ordem correta. 


ALTOS E BAIXOS

A direção de arte de A plague tale é impecável. A fotografia, os jogos de luz e sombra que intercalam cenários diurnos e becos escuros iluminados apenas por pequenas fontes de calor impressionam até os mais vividos jornalistas de campo do Globo Repórter. Além disso, a ambientação em si de uma Era Medieval consegue sem problemas te transportar pra época.

O gráfico dos personagens também é muito bonito, mas achei que as expressões faciais deixaram a desejar, principalmente em momentos de sofrimento, que não foram fiéis ao contexto pelo qual as pessoas estavam passando. Ao mesmo tempo, temos que dar uma colher de chá ao estúdio independente, que soube compensar essa fraqueza com uma boa escolha de elenco: os dubladores, além de transmitirem de forma satisfatória os sentimentos exigidos, entregaram um sotaque francês decente sem ficar caricato.

Ponto também para o conceito criativo dos ratos, que, com seus guinchos perturbadores, me causaram muito mais temor que os inimigos humanos.

Agora, a parada ruim pra mim mesmo-mesmo, a ponto de me deixar irritada, foi o terceiro ato de A plague tale. Prestes a concluir sua história, o jogo exagera na quantidade de combates - sendo uns bem mais difíceis, principalmente pela limitação de que já falei - tirando a diversão que obrigatoriamente deveria existir. 

Nessa aparente intenção de intensificar as batalhas até chegar no "chefão", a minha gameplay ficou cansativa e pode ter prejudicado minha absorção do fim da história. Por mais que eu tenha acreditado na relação de afeto progressiva entre os irmãos, não me envolvi tanto emocionalmente quanto poderia ter me envolvido e esperava uma resolução mais focada nesse aspecto, e não em literalmente "acabar com o mal pela raiz", rs.


Mas uma coisa é certa: o innocence do título do game pode ter tudo a ver com amadurecer e encarar as realidades de uma época terrível. Porém, também fala da resistência dessa inocência - a capacidade de não deixar a podridão do mundo te corromper, alusão feita pela doença de Hugo, um menino que nunca perde o olhar de quem ainda enxerga magia nas pessoas e nas coisas. Isso me pegou. 


Nota:



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